Sexo, açúcar e rock n’roll

O vício é um hábito repetitivo que causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

OPINIÃO de Francisco Goiana da Silva

Um vício é um é um hábito repetitivo que degenera ou causa prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Os viciados dão prioridade à sua satisfação face a todas as outras componentes biológicas e sociais independentemente do impacto negativo que essa satisfação tem nas suas vidas e nas vidas dos que os rodeiam. A título de exemplo, temos os ninfomaníacos caracterizados pela sua vontade compulsiva de fazer sexo, e os toxicodependentes que se caracterizam por não conseguirem ser funcionais sem o consumo regular de drogas.

Mas, paradoxalmente, àqueles que não conseguem fazer uma dieta desprovida de açúcar em excesso chamamos, simplesmente, gulosos. Mesmo que isso seja um comportamento reiterado muito difícil de controlar e tenha um impacto negativo na sua saúde e seja responsável por mais mortes e pela destruição de mais famílias do que os dois vícios anteriores, juntos.

Ao contrário do que acontece com outros vícios, é socialmente aceite encharcamos as chupetas dos recém-nascidos com açúcar para que parem de chorar. Oferecemo-lo constantemente às nossas crianças como recompensa ou moeda de troca. Cozinhamos com ele e ainda o polvilhamos em cima de qualquer fruta ou iogurte.

O açúcar está de facto em todo o lado e muito presente no nosso quotidiano mas ainda assim fará sentido considerá-lo uma droga viciante?

Recentemente, esta questão levou uma equipa de investigadores a concluir numa publicação científica que o açúcar deveria ser considerado uma droga com poder comparável ao da cocaína. A polémica não se fez esperar e muitas foram as individualidades que apelidaram essa teoria de absurda, não fosse esta possibilidade colocar em causa a bondade dos interesses de uma das indústrias mais influentes do mundo: a indústria alimentar.

Lobbies e desinformação à parte, o açúcar pode mesmo ter características mais semelhantes à cocaína do que aquilo que julgamos. Poucas pessoas constatam essa realidade diariamente devido à dificuldade de acesso à cocaína comparativamente ao açúcar. Pela sua acessibilidade, o açúcar é uma substância com um potencial destruidor muito maior do que a cocaína.

Todas as substâncias com potencial viciante aumentam a vontade de repetir o comportamento que as produziu, atuando assim como “reforçadores instrumentais”. Ao nível molecular, a substância responsável por este fenómeno é a dopamina, conhecida como molécula do “prazer/recompensa”. O nosso cérebro liberta esta substância em resposta a estímulos. O sabor doce dos alimentos com elevado teor de açúcar, hidratos de carbono, ou até adoçantes estimula este reflexo inato do nosso cérebro.

Tal fenómeno verifica-se desde a pré-história. Nessa altura, o acesso a alimentos era restrito, pelo que se tornava vantajoso procurar alimentos ricos em energia para nos sustentar por maiores períodos de tempo. O sabor doce era sinal de alto valor energético e, portanto, fomos programados pela evolução para preferir esse tipo de alimentos.

No entanto, os nossos mecanismos cerebrais não se adaptaram ao acesso a comida com fartura. Assim, a vantagem evolutiva de procurar alimentos doces acabou por se tornar “não adaptativa”. Nos dias de hoje, essa tendência afeta-nos negativamente, pois aqueles que consomem mais açúcar tendem a adoecer mais do que os que o fazem com moderação.

Aliado ao fácil acesso a comidas com excesso de açúcar, o nosso mecanismo cerebral tem-nos levado a consumos excessivos e repetidos. O instinto mantém-se apesar de o contexto ter mudado. Este facto é evidenciado pela escalada dos teores de açúcar dos alimentos ao longo das últimas décadas e pela prevalência crescente de doenças relacionadas com esses consumos como a obesidade e diabetes.

Incontáveis estudos epidemiológicos apontam uma correlação positiva significativa entre consumo de açúcar e riscos como os de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes. Como se não bastasse, recentemente os produtos resultantes do metabolismo do açúcar foram associados à inflamação, depressão e até à doença de Alzheimer.

De facto, estudos recentes em ratos provam que o consumo de cocaína é preterido pela preferência por sabores doces. Por incrível que pareça, isto revela que o açúcar pode ser mais recompensador e aditivo que essa droga.

Argumentar que tal preferência se deve ao facto de que os ratos não serem humanos, pelo que não têm “recompensa social na utilização de drogas recreativas”, é absurdo, especialmente tendo em consideração que a dopamina foi libertada em maiores quantidades como resposta à cocaína do que ao sabor doce, indicando que até para os ratos a cocaína parece induzir mais recompensa.

Mas se a dopamina não é o fim da história, o que nos está a escapar?

Para além da dopamina, existem outras moléculas críticas para o vício do açúcar: chamam-se opioides. Estas moléculas endógenas são libertadas em grandes quantidades após exposição ao açúcar, atuando nos mesmos recetores que a heroína, induzindo dependência da mesma maneira, pela aversão aos efeitos nefastos da abstinência.

Os próprios estudos com ratos sugerem que o açúcar induz dependência por este motivo. Neste contexto, a abstinência de açúcar pode motivar sintomas de ansiedade, impulsividade, depressão, ranger de dentes, tremor das patas e vibrações na cabeça semelhantes aos sintomas observados em humanos após abstinência de heroína.

Para concluir, a imagem que emerge dos estudos com animais e humanos é que os açúcares adicionados comportam-se como substâncias aditivas:

  1. O açúcar, na sua forma pura, branca e cristalina, é rapidamente absorvido e chega ao cérebro onde exerce os seus efeitos metabólicos tóxicos e viciantes, através de processos semelhantes aos desencadeados pela cocaína e heroína.
  2. Múltiplas exposições ao açúcar promovem a formação de hábitos compulsivos, tal como acontece com o álcool e a nicotina.
  3. O açúcar induz prazer e desejos psicológicos comparáveis a substâncias de abuso. Estudos evidenciam que indica que pode até superar a cocaína.
  4. O açúcar altera o nosso humor e emoções, resultando em sentimentos de prazer e recompensa que encorajam a procura de mais açúcar.

O consumo crónico de açúcar, combinado com os períodos intermitentes de abstinência levam a um estado de défice de dopamina permanente, potenciando a dependência e levando à disfunção do córtex pré-frontal que resulta na perda de autocontrolo e no consumo compulsivo. Em animais, todos os sintomas observados são mais do que suficientes para serem classificados como um vício de acordo com o DSM-V (manual de diagnóstico e estatístico de doenças mentais da Associação de Psiquiátrica Americana.

Assim, a evidência parece sugerir que o vicio em açúcar existe e, como tal, a sociedade precisa de ser alertada para este crescente problema, e o Estado precisa de tomar medidas para reduzir os seus efeitos adversos.

É absurda a desculpa de que a preferência pelo sabor doce é inata, e como tal não se trata de um vício, pois é apenas a consequência de possuir papilas gustativas funcionantes. Usando o mesmo argumento poderíamos dizer que a preferência pelas drogas recreativas é inata e como tal não pode ser classificada como vício. Com um mínimo de bom senso é fácil compreender que o facto de uma substância sequestrar um sistema biológico inato não significa que o seu consumo excessivo não seja viciante e tenha efeitos adversos.

Ninguém nega que até o sexo, outra recompensa natural e definitivamente essencial à sobrevivência, se possa tornar aditivo numa sociedade onde este deixou de ser escasso. Se o vício sexual já foi classificado como vício pela Associação de Psiquiátrica Americana, porque é que o açúcar ainda não o foi?

Não há dúvida que açúcar em moderação tem benefícios, mas quem argumenta que isso deve impedir que o açúcar seja classificado como uma droga potencialmente viciante deverá repensar cientificamente os seus argumentos. Os efeitos terapêuticos do consumo de marijuana, cocaína, álcool, nicotina e outras drogas alucinogénias em pequenas quantidades já foram demonstrados. No entanto, isso não invalida que sejam substâncias altamente viciantes.

Em conclusão, há cada vez menos margem para dúvidas: o açúcar em excesso é nocivo e deve ser tratado com o cuidado que qualquer droga implica!

E você? Já tomou a sua dose de hoje?

[Contributos técnicos e científicos: Francisco Sacadura, neurocientista, University College of London]

Francisco Goiana da Silva, 29 anos, é médico, docente universitário na área da Gestão e Liderança de Saúde na Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior. É formado em medicina pela Universidade de Lisboa, e em Gestão e Políticas de Saúde pela Imperial College de Londres e Universidade de Harvard.

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