Os organizadinhos do Natal, essa gente estranha

– Os meus pais estão quase a chegar. Falta alguma coisa?

– Já?!

– Como já? Já viste as horas? São seis da tarde.

– Eu sei. Mas isso é lá hora para ir para casa de alguém? Temos tanta coisa para fazer, porque é que vêm tão cedo?

– Sabes como são os meus pais, quanto mais cedo melhor. Jantam cedo e estão reformados. E querem vir para cá para estar connosco e com os netos.

– Mas venham à hora das outras pessoas. Às oito. Ou às nove.

– Ou às dez, como os teus pais. Ou tu.

– Não me enerves. Ainda tenho uma data de coisas para despachar. Fazer as entradas, pôr a mesa, colar aquelas figuras do presépio que se partiram. E ainda queria ir comprar mais uma coisa num instante.

– Eu já pus a mesa. E posso fazer as entradas.

– Não tinhas coisas para embrulhar?

– Já embrulhei.

– E o doce que querias fazer?

– Já está na mesa dos doces. Ainda bem que reparaste que usei o forno.

– E já tomaste banho?

– Achas que estava com a roupa nova se não tivesse tomado banho?

– Já estás vestida? Vestida mesmo? Despachada?

– São seis da tarde da véspera de Natal. Por uma vez desde que estou casada gostava de poder usufruir de uma consoada em paz, sossegada, sem estar preocupada com a quantidade de coisas por fazer. Por isso é que preparei tudo ontem, por isso é que me levantei cedo, por isso é que fiz uma lista – a que tu não ligaste nenhuma, por sinal. E tu, o que é que fizeste?

– Eu fiz montes de coisas.

– O quê?

– Quem é que fez o jantar?

– O jantar não está feito. As couves estão ao lume, o resto ainda se vai fazer.

– E quem é que preparou tudo?

– Descascaste as batatas hoje e foste buscar o bacalhau há uma semana.

– Porque é que me estás a chatear?

– Porque deixas sempre tudo para a última hora e isso enerva-me de uma maneira que não consegues imaginar.

– Não pareces nada enervada.

– Isso é porque tomei um comprimido depois de almoço. Para não me enervar contigo no dia de hoje.

– Tomaste um comprimido para não te enervares?

– Não. Tomei um comprimido para não me enervar contigo. Contigo. É diferente. E que história é essa de ainda quereres sair de casa duas horas antes do jantar? Isso está aqui a moer-me o juízo e estou a tentar não te mandar a um sítio.

– É uma coisa rápida, não vou demorar nada.

– Está tudo fechado a esta hora.

– Este sítio está aberto. Liguei para lá. E se não for, tu vais ficar chateada comigo e eu não quero isso.

– Tu vais buscar o meu presente? O meu presente, que eu te disse há uns três meses o que gostaria que fosse, tu vais buscar às seis da tarde da véspera de Natal?

– Não consegui ir antes.

– Tu tens noção do que me estás a irritar?

– Os comprimidos não estão a resultar?

– Acho que é melhor saíres da minha frente. A sério. Mas porque é que não és capaz de planificar e organizar como toda a gente? Porque é que deixas tudo para a última hora? Os presentes de Natal, o IRS, o sítio das férias de verão, a revisão do carro, tudo. Tudo. Porque é que tu és assim? Porque é que achas sempre que consegues encaixar 48 horas em 24? Porquê?!

– Adorava ficar aqui a falar contigo sobre essa mania da organização que tu e a tua família têm, mas se não me despacho já apanho a loja fechada. Já falamos, pode ser? Diz ao teu pai que há cerveja no frigorífico. Quer dizer, não há. Há, mas não está fresca. Esqueci-me de pôr no frigorífico.

– Desaparece da minha frente.

[Publicado originalmente na edição de 25 de dezembro de 2016]