Os conflitos parentais matam

As separações e divórcios têm vindo a aumentar de uma forma exponencial e são cada vez mais as crianças que nascem e crescem divididas entre dois agregados, materno e paterno.

Não podemos questionar, com a evidência empírica de que já dispomos, a importância que estes convívios da criança com ambos os pais têm para o desenvolvimento de uma relação de vinculação segura e um saudável processo de crescimento. E sublinho o termo “convívios”, por oposição ao termo “visitas”, sendo que este último apenas faz sentido quando pensamos em visitar alguém doente ou qualquer outra pessoa, o que fazemos ocasionalmente. Não se visitam pais nem mães e ponto final, parágrafo.

Ao longo de 21 anos de trabalho pericial na área da psicologia clínica e forense, penso que já vi de tudo um pouco. Dizer mal do outro pai na presença da criança, induzir medo e terror, contar mentiras, distorcer factos, expor a criança a dados processuais

Estas crianças são muitas, mas muitas vezes, expostas aos conflitos entre os pais. Pais auto-centrados e narcísicos que não conseguem distinguir conjugalidade e parentalidade. Pais que olham para os filhos como objectos e moedas de troca, armas de arremesso e troféus. Pais que não olham a meios para atingir os seus fins.

Temos, assim, crianças expostas a tudo o que de pior se possa imaginar. Ao longo de 21 anos de trabalho pericial na área da psicologia clínica e forense, penso que já vi de tudo um pouco. Dizer mal do outro pai na presença da criança, induzir medo e terror, contar mentiras, distorcer factos, expor a criança a dados processuais, trocar mails ofensivos com os filhos em CC. Mostrar fotos ou vídeos sexuais do outro progenitor, acusar o outro de maus tratos, negligência ou abuso sexual, impedir contactos, raptar a criança. Há de tudo e diria mesmo que a realidade supera qualquer ficção.

Isto mata.

Mata as crianças por dentro, devagarinho, como uma doença má que corrói sem se ver. Mata as vivências boas com ambos os pais, os sonhos e os desejos. Mata a esperança num futuro risonho, do qual fazem parte os pais e os outros elementos da família. Mata a capacidade em confiar, em amar, em saber dar e receber afecto. Mata a capacidade em estabelecer relações saudáveis com os outros e consigo mesmas.

Mas isto também mata os pais. Os pais que são denegridos, falsamente acusados, impedidos de conviver e de manter um relacionamento saudável com os seus filhos. Mata o seu bem-estar e felicidade. Mata os planos e as expectativas que se criam quando nasce uma criança. Mata a capacidade de viver o dia-a-dia de uma forma ajustada. E mata aquilo que mais me aflige, que é o brilho nos olhos e a capacidade em acreditar na ajuda do sistema profissional.

Estes processos matam famílias inteiras. Primos que deixam de conviver, avós que perdem o rasto aos netos, tios e outros familiares que se desligam tantas vezes para sempre.

Pelo caminho, vejo pais a desistir. Pais a baixar os braços e a dizer que vão deixar de lutar porque deixaram de acreditar. Crianças órfãs de pais vivos que não poderão, jamais, recuperar o tempo perdido. Porque aquilo que acontece na infância não fica na infância.

Depressão, ansiedade, perturbações de personalidade ou outras que não são devidamente valorizadas e que, em momentos de maior crise, podem potenciar comportamentos mais desajustados.

Neste contexto, alguns pais (e aqui falo, quer dos que prejudicam a relação dos filhos com o outro progenitor, quer dos que são injustamente impedidos de conviver com os filhos) atingem o limite dos limites e cometem actos que dificilmente se explicam. E matam. Matam a sério. Matam o outro progenitor, matam a criança, matam-se a si mesmos.

De mãos dadas com tudo isto, temos frequentemente problemas a nível da saúde mental que nem sempre são diagnosticados adequada nem atempadamente e, consequentemente, não recebem a intervenção necessária. Depressão, ansiedade, perturbações de personalidade ou outras que não são devidamente valorizadas e que, em momentos de maior crise, podem potenciar comportamentos mais desajustados.

A saúde mental… sempre a saúde mental a ser desvalorizada.

Neste contexto, diria que a intervenção no âmbito dos conflitos parentais exige uma mudança de paradigma.

Em primeiro lugar, assumir de forma clara que a exposição da criança a este tipo de situações configura um crime de maus tratos emocionais. E, como tal, exige uma abordagem centrada no superior interesse da criança, que a proteja de forma efectiva.

Em segundo lugar, rever as práticas do sistema profissional, claramente ineficazes em tantas situações, repensando estratégias de avaliação e intervenção. Mais céleres, porque o tempo das crianças não se coaduna com o tempo dos serviços, mais articuladas do ponto de vista disciplinar e, acima de tudo, mais próximas das famílias.

As famílias precisam de serviços de apoio ao longo do ciclo de vida e, em particular, em momentos de crise. A separação e o divórcio são crises intensas, carregadas de stress e desafios e nem sempre os pais dispõem dos recursos necessários para os ultrapassar. Precisam, assim, de equipas especializadas e disponíveis que, mais do que fazer relatórios que reportam a situação às instâncias superiores, intervenham de uma forma adequada e com recursos a metodologias cientificamente validadas.