Os filhos seguem os passos das mães nas relações amorosas?

Traços de personalidade e competências relacionais fracas das mães podem ser transmitidas aos filhos. Posto isto, e de acordo com um novo estudo, pessoas cujas mães tiveram vários parceiros tendem a seguir o mesmo caminho. A psicóloga Catarina Mexia explica porque isto acontece.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia ShutterStock

Um novo estudo, publicado na revista PlosOne, concluiu que as pessoas cujas mães tiveram vários parceiros têm tendência a fazê-lo também.

De acordo com a investigação, esta inclinação está relacionada com os traços de personalidade, que são «transmitidos» à seguinte geração. Estas mães teriam dificuldades em lidar com o conflito e têm poucas competências relacionais.

Questionada sobre os resultados deste estudo, a psicóloga Catarina Mexia explica como a herança familiar é relevante no que diz respeito também às relações amorosas.

«As relações são aprendidas, a vivência da instabilidade e os comportamentos que a ela conduz também, e a mãe continua a ser um modelo muito importante para os filhos, mesmo nesta nossa sociedade em transformação», começa por dizer a especialista.

Por outro lado, também a proximidade com relacionamentos duradouros pode significar maior sentido de compromisso no futuro

«As heranças familiares influenciam-nos de forma que muitas vezes nem suspeitamos, e não apenas na vivência da nossa família de origem direta. Existem padrões de relacionamento e comportamentos que se transmitem ao longo de gerações», acrescenta.

Catarina Mexia lembra ainda que os momentos de tensão e mal-estar, muitas vezes vividos nos relacionamentos mais complicados, são facilmente «transmitidos» às crianças, sendo que mais tarde tudo isso também se refletirá nas suas próprias relações.

Por outro lado, também a proximidade com relacionamentos duradouros pode significar maior sentido de compromisso no futuro, «se duradouro for sinónimo de felicidade, bem-estar e resolução de dificuldades através do diálogo».

«No fundo, elas estão a testemunhar que o cerne da relação é baseado na cumplicidade, no amor, na confiança, numa boa comunicação, valores que ultrapassam questões de ego, que permitem ultrapassar dificuldades e diferenças de opinião», diz ainda a psicóloga e terapeuta familiar.

Mais divórcios, porquê?

Sobre o aumento dos divórcios em Portugal, a especialista defende que existem várias razões para que isso aconteça, apontando o individualismo e a falta de compromisso como alguns dos fatores condicionantes.

«Não existe uma razão única, mas também em Portugal se vivem os efeitos do individualismo, do descartável, do experimentalismo. Anteriormente as relações de compromisso eram construídas na base de um período de experiência, conhecimento prévio, construção e alicerce».

Nunca tivemos tantos meios para comunicar tanto e tão depressa e comunicamos tão pouco e de forma tão pobre e tão pouco

«Esse tempo conhecido por namoro, antes de concretizar esse compromisso, seja através do casamento, seja do viver junto. Atualmente, sinal dos tempos, experimentamos antes, vemos se dá e dissolvemos algo que ainda era um teste, baseados no pressuposto da felicidade e realização pessoais».

«Podia referir uma série de questões do quotidiano, mas diria que, na era do digital, a principal questão que se coloca aos casais é de facto o da comunicação», diz a especialista.

Acrescentando: «Nunca tivemos tantos meios para comunicar tanto e tão depressa e comunicamos tão pouco e de forma tão pobre. Num casal isso é dramático e fonte de conflito e rutura».


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