Os homens não se medem em termómetros

– O que é que achas?
– O que é que acho do quê?
– Achas que devíamos ir às urgências?
– Às urgências? Porquê?
– Mas tu ouviste o que tenho estado a dizer?
– Sim, estavas a falar do Miguel, que foi operado, mas o que é que isso tem a ver com as urgências? Ele está in­ternado em Gastrenterologia. Não está nas urgências.
– Eu sei. Mas estava a dizer-te que ando aqui com uma dor e que se calhar devia ver isto. Lembrei-me por cau­sa dele.
– Mas qual dor?
– Bolas, mas estou a falar para o boneco? Estou há meia hora a falar de uma dor de barriga e não me ligas ne­nhuma.
– Mas queres ir às urgências por causa de uma dor de barriga? E queres que eu vá contigo? Desde quando é que tens a dor?
– Anda aqui a chatear-me.
– Desde quando?
– É uma dor que vai e vem. Uma moinha.
– Mas desde quando, homem? Há muito tempo?
– Desde hoje.
– Hoje? Hoje quando? Acordaste assim?
– Não. Foi há bocado.
– Quando chegaste a casa?
– Mais ou menos.
– Estás a começar a enervar-me. Há quanto tempo é que tens essa dor?
– Começou depois de jantar.
– Eu disse-te para não repetires o empadão.
– Não foi do empadão. Acho que pode ser do fígado. Ou então vesícula.
– Tu comeste que nem uma lontra ao jantar e queres ir às urgências? És mais piegas do que os homens piegas. Tem mas é juízo. Isso é porque estás enfartado. Ou então são intestinos.
– Não sei. Com o Miguel co­meçou assim.
– O Miguel teve uma apendicite! Aguda! Ia morrendo. E tu estás com dor de burro e queres ir para as urgências. Das duas uma: ou vais à casa de banho ou vais a um cen­tro de saúde. Não vais entupir as urgências por uma dor que começou há duas horas. Estás a somatizar por cau­sa do teu amigo. Ou então estás com inveja porque ele es­tá no hospital, cheio de médicos e enfermeiros e exames e análises e tu não.
– Eu sei que tu achas que costumo queixar-me muitas vezes, mas agora estou mesmo a ficar aflito.
– Meu amor, se começares a ficar pálido, com suores frios, com febre ou se te atirares para o chão agarrado à barriga com dores, sou a primeira a levar-te ao hospital. Ou a cha­mar uma ambulância. Caso contrário, não me convences.
– Se isto for grave, vais sentir-te mal.
– E se não for, não vou perder tempo, não vou perder a novela e não vou perder horas de sono a acompanhar-te numa coisa que não vai dar em nada. Eu já estive neste filme, lembras-te? Já fui várias vezes contigo para o hos­pital sem necessidade.
– Eu não sou hipocondríaco. Quando vou é porque me queixo.
– Tu tens uma dor de garganta e queres ir ao médico. Tens uma dor de cabeça e pedes para te fazerem uma ressonância magnética. Dás um espirro e pensas que tens uma pneumonia. Tu não és hipocondríaco. És ho­mem. E és piegas. E não tens capacidade nenhuma de resistência à dor. Qualquer coisinha, é logo um ai-jesus. E eu, ao fim de 15 anos de casamento, já não acredito nas tuas dores. Lamento.
– Se não queres ir comigo, vou sozinho.
– Vão dar-te uma daquelas pulseiras que não são urgen­tes e vais lá ficar a noite toda. E a manhã também. Vais faltar ao trabalho amanhã?
– Eu vou a um hospital privado. É mais rápido.
– Olha que lá não têm as especialidades todas. E se isso for grave? E se precisares de um oftalmologista por cau­sa da dor de estômago? Ou de um ortopedista porque es­tás com prisão de ventre. Tu tem cuidado.
– Estás a gozar comigo? Vou-me vestir.
– Telefona quando lá chegares.

[Publicado originalmente na edição de 5 de abril de 2015]