Os inimigos das crianças: “Quem se responsabiliza pelos anos perdidos com cházinhos e ervinhas?”

Miguel Mealha Estrada é psicanalista pediátrico e especialista em neurodesenvolvimento. Coordenou o livro "Os Inimigos das Crianças" [ed. Casa das Letras]

Para Miguel Mealha Estrada, psicanalista pediátrico e especialista em neurodesenvolvimento, medicina há só uma, que é igual em todo o mundo e baseada na evidência científica. Por isso, fez sua a missão de informar, desmistificar e denunciar a “inutilidade” das terapias ditas alternativas. O livro Os Inimigos das Crianças [ed. Casa das Letras], que coordena, aborda temas como a vacinação e os movimentos anti-vacinas, o uso de medicamentos antidepressivos, a síndrome de hiperatividade e défice de atenção e o papel da ritalina, a escola, a importância da brincadeira e o problema do bullying, o parto hospitalar versus parto em casa, a amamentação, entre outros. Acabar com a iliteracia científica e os mitos da ignorância e evitar que as pessoas sejam enganadas por tratamentos de faz-de-conta é o objetivo.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Leonardo Negrão

Os principais inimigos das crianças são a ignorância e a desinformação?

Sim, sobretudo a desinformação que é propagada às toneladas na internet e no folclore das redes sociais. Mas são também as chamadas terapias alternativas – e quem as pratica –, que, embora sejam na sua maioria inócuas, porque não fazem nada, podem atrasar tratamentos. São conhecidos milhares de casos de pessoas que em vez de terem ido ao médico foram a um naturopata ou fazer acupuntura e atrasaram o diagnóstico de um tumor e depois já era tarde de mais.

Vejo crianças com autismo ou Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) que podiam ter tido o tratamento adequado e não tiveram porque andaram a tomar ervinhas, chás ou a espetar agulhas no corpo e, entretanto, perderam um ano de escola, às vezes dois, porque não conseguem concentrar-se.

O défice de atenção é algo genético e neuroquímico e a falta de tratamento adequado provoca aumento da desmotivação, diminuição da capacidade emocional de aprender, aumenta o divórcio na família, assim como os conflitos entre pais e criança e escola e nisto tudo quem ficou com os bolsos cheios foi quem andou a vender mezinhas medievais.

O livro Os Inimigos das Crianças, que coordenou, é um manifesto contra as terapias alternativas…

Sabe o que me preocupa mais? É que agora, por incrível que pareça, quando a Austrália e toda a Europa estão a recuar, devido à falta de evidência científica – Inglaterra já eliminou a homeopatia do Serviço Nacional de Saúde, França já deixou de comparticipar os produtos homeopáticos – Portugal faz o caminho inverso e as terapias alternativas fazem agora parte da Lei de Bases da Saúde. Isto é inconcebível.

Não reconhece qualquer valor a nenhuma das chamadas terapias alternativas ou complementares? São muitas e diversas. Põe todas no mesmo saco?

Não são alternativa a nada, não complementam absolutamente nada e não servem para nada, além do placebo. É possível que, por exemplo, na osteopatia ou na fitoterapia exista algum benefício aqui e ali, mas isso tem que ser avaliado por um médico ou um profissional de saúde e não por estas pessoas que praticam as terapias alternativas.

A introdução das “terapêuticas não convencionais” na Lei de Bases da Saúde terá que ver com a necessidade de regular e fiscalizar a sua prática. Não é preferível isso ao que existia até aqui? Ou defende a proibição?

Não defendo a proibição. As pessoas têm o direito de fazerem o que quiserem com o seu dinheiro, mas que não se legalize algo que não traz benefícios para a saúde em pé de igualdade com a medicina.

O que importa são os dados científicos e não a opinião do A, do B ou do C. O que conta é o que diz a ciência e é por esta que os profissionais de saúde devem reger-se.

Mas dentro da própria medicina, há médicos que utilizam e aconselham estas terapêuticas como complemento à sua prática clínica. Assim como são médicos muitos dos que questionam os diagnósticos de PHDA e o uso de ritalina, que reputam de excessivos. Ou seja, dentro da própria medicina, existem correntes contraditórias.

O que importa são os dados científicos e não a opinião do A, do B ou do C. Não é a minha experiência ou a do outro que contam, o que conta é o que diz a ciência e é por esta que os profissionais de saúde devem reger-se. Eu, quando falo de PHDA, não falo em nome próprio, falo por ter estudado academicamente a matéria como especialidade e informado pelos últimos avanços da ciência e da investigação.

Avanços que dizem que a ritalina é essencial para o tratamento da PHDA. Não existe, portanto, um uso excessivo deste medicamento?

Não, pelo contrário. A ritalina é um psicoestimulante tomado todos os dias por crianças e por adultos, porque a PHDA não desaparece por si própria, é um espetro que pode ir diminuindo ou não com a idade. O mais relevante é o défice de atenção e a impulsividade, esses são um dos grandes problemas, e muitos adultos continuam a ter as mesmas dificuldades que tinham em crianças.

Mas respondendo à sua pergunta, se temos na população infantil entre 5 e 7 por cento de crianças com PHDA e só 1,7 por cento estão medicadas, a grande preocupação são os milhares que não estão diagnosticados e não estão a ter o acompanhamento adequado, que é a intervenção medicamentosa, psicoterapêutica e com a escola e a família.

Cada euro que se investe na [prevenção em] saúde mental significa quatro euros de retorno no futuro.

Outra questão que o livro procura desmistificar é o do uso de antidepressivos nas crianças ou adolescentes com depressão.

Esse é a abordagem reativa, que é necessária quando a pessoa está doente, mas precisamos sobretudo de uma abordagem preventiva. E esta, em relação à saúde mental, tem que começar pelas escolas. Fiz um projeto para as escolas portuguesas para que as crianças sinalizadas com problemas de saúde mental em cada escola possam ter uma equipa multidisciplinar que vai lá trabalhar com os professores, os pais e as crianças, semanalmente. Tratar da criança não chega, temos que trabalhar também com a família e com os professores e isto é uma enorme valia para o país.

Porque previne problemas futuros?

Exato e vai beneficiar imensamente o país, a diversos níveis: menos doenças contagiosas, menos criminalidade, menos gastos com tribunais, menos insucesso escolar, menos absentismo, maior produtividade para a economia e melhor qualidade nas relações interpessoais.

Cada euro que se investe na saúde mental significa quatro euros de retorno no futuro. E não é só isso, trata-se também de proporcionar, nas escolas, às crianças e às famílias, o tratamento e a informação necessária a um pensamento crítico. Trata-se de ajudar as pessoas a ter capacidade de analisar os problemas e tomar decisões informadas e conscientes.

Hoje temos uma esperança média de vida nos países desenvolvidos perto dos oitenta anos e isso deve-se aos avanços da medicina, não se deve aos avanços do reiki nem da acupuntura.

Mas, normalmente, quem recorre às terapias não convencionais até são pessoas com meios económicos para o fazer e com acesso a informação. Isto é paradoxal, na sua opinião?

Têm mais acesso à desinformação. Vamos lá ver, informação não é conhecimento e ter conhecimento dá muito trabalho. Por outro lado, pior do que a ignorância é a crença. Quando as pessoas têm uma crença, é extremamente difícil fazê-las deixar de acreditar. Mas realidade só há uma e é regida por leis da física e da biologia e da química. Portanto, aquilo em que eu acredito não importa nada. Importa aquilo que a ciência diz e a ciência demonstra que estas terapêuticas não têm qualquer validade, para além do placebo.

Entre os inimigos apontados no vosso livro estão os movimentos anti-vacinação. Já estamos a assistir às consequências nefastas dessa “moda”. Como é que isto aconteceu?

Existe uma tendência normal no ser humano para consciente ou inconscientemente pertencer a um grupo, que é um traço evolutivo, porque foi em grupo, e não em sociedade, que evoluímos. É normal que as pessoas queiram sentir-se especiais inseridas num grupo. O problema é quando os grupos são anti-vacinas ou anti-indústria farmacêutica.

Existem inúmeros estudos acerca de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, como estas, e está provado que se encontram num patamar de maior vulnerabilidade à depressão ou à ansiedade. Há ainda outro fator, a que o psicanalista Carl Jung chamou puer aeternus, a criança eterna, que é uma certa recusa em sair da adolescência, da fantasia esotérica e do pensamento mágico.

As vacinas foram dos maiores avanços da humanidade. Antes das vacinas, morriam aos milhares. Hoje temos uma esperança média de vida nos países desenvolvidos perto dos oitenta anos e isso deve-se aos avanços da medicina, não se deve aos avanços do reiki nem da acupuntura. Ah, é uma técnica milenar, pois é, e as pessoas tinham uma esperança de vida de 35 a 40 anos. Pode também ser que antes dos avanços da medicina, andassem a espetar as agulhas no lugar errado, do que eu duvido.

A homeopatia é água com açúcar, não faz absolutamente nada. Pergunto-me se as pessoas que praticam a homeopatia alguma vez puseram os pés numa aula de física ou de química.

Põe o reiki ao mesmo nível da medicina tradicional chinesa?

Ponho. Placebo é placebo. Ponho a medicina tradicional chinesa, o reiki ou ver um filme tudo no mesmo patamar. Aliás, ver um filme pode trazer mais benefícios do que a medicina tradicional chinesa ou o reiki. Como disse Nuno Lobo Antunes, no prefácio do livro, a ignorância vestida de lantejoulas é patética e de mau gosto.

Quando fala de lantejoulas está a falar de quê?

As lantejoulas são todo o teatro que anda à volta destas ditas terapias, com as suas maquinetas, as suas batas brancas e todo aquele misticismo envolvente. É isso a ignorância vestida de lantejoulas.

Vivo diariamente o sofrimento das crianças e das famílias e sei que pode ter consequências dramáticas. Quem é que se responsabiliza pelos anos perdidos com cházinhos e ervinhas?

Mas alguma dessa ignorância é validada por médicos.

Infelizmente. Na verdade, toda a evidência científica aponta para o mesmo, nem a acupuntura feita pela medicina tradicional chinesa nem a acupuntura médica tem qualquer benefício para aquilo que diz poder tratar. Não sou eu que digo. Está estudado. Mas há um grande interesse económico à volta disto, claro. E nem me fale do reiki. A energia não sai dos nossos corpos, está nas células, é gerado por uma molécula chamada ATP (adenosina trifosfato) e isso é que é energia, não emana, como nos filmes dos X-Men, não sai de um corpo para outro, não há raios nem fadas nem unicórnios. Não há.

Mas eles não dizem que há unicórnios.

Quanto a isso não consigo responder, mas a homeopatia, por exemplo, é água com açúcar, não faz absolutamente nada. Pergunto-me se as pessoas que praticam a homeopatia alguma vez puseram os pés numa aula de física ou de química. E se puseram em que planeta foi, porque neste não foi com certeza. Ou se foi o professor de físico-química estava sob o efeito de LSD. É como tirar um bocadinho de uma substância, dilui-la ao ponto de que já nem a molécula existe, meter num frasco e vender às pessoas. Em 2020 [gargalhada]. Eu sei que tenho humor negro, mas, bolas, o mundo também não ajuda.

Não me venham com a conversa dos químicos. Tudo é químico. Comer uma sopa é químico. A falácia naturalista ilude esta questão, mas é tudo químico.

Porque é que elegeu como missão esta batalha contra as terapêuticas não convencionais?

Vivo diariamente o sofrimento das crianças e das famílias e sei que pode ter consequências dramáticas. Quem é que se responsabiliza pelos anos perdidos com cházinhos e ervinhas?

Há muita falta de informação, há muita desinformação e ainda há o Dr. Google. Muitas pessoas chegam às consultas a dar aulas de psicofarmacologia aos profissionais de saúde, a dizer que não se deve dar medicação às crianças até aos cinco anos… O quê? Os medicamentos foram criados para tratar, para tomar quando é necessário.

Para tratar uma criança com PHDA é preciso eu e a pedopsiquiatra, pelo menos, que trabalhamos com os pais, com os professores e com a criança. É um bocadinho diferente de dar um cházinho ou espetar agulhas, não acha?

E não me venham com a conversa dos químicos. Tudo é químico. Comer uma sopa é químico. A falácia naturalista ilude esta questão, mas é tudo químico. Eu estou a respirar e estou a transformar oxigénio em dióxido de carbono, tenho milhares de químicos dentro de mim. Os medicamentos são químicos, claro que não são inócuos, podem ter efeitos colaterais, mas foram feitos para tratar e são esses químicos que salvam a vida a milhões de pessoas por dia.

Coordenado por Miguel Mealha Estrada, o livro “Os Inimigos das Crianças” tem a colaboração dos especialistas Armando Brito de Sá, Filipe Magalhães Ramos, Flávio Simões, Nuno Pangaio, Óscar de Barros, Ricardo Lopes, Sara Faustino e Susana Garcia de Vargas.