Os opinadores profissionais do Facebook

Não é uma reflexão nova, mas é sempre atual. E quem frequenta, com alguma assiduidade o Facebook, o Instagram ou o Twitter acaba por pensar nisso. Será que nos expomos demasiado nas redes sociais? Mostramos coisas demais das nossas vidas?

Tenho estas dúvidas quando coloco no Facebook uma fotografia das minhas filhas ou do robalo grelhado que comi ao almoço, quando partilho o nome do livro que estou a ler, quando desabafo sobre o vizinho da frente (e mostro a rua), quando atualizo o meu estado, identificando também o local onde estou. Se chego à conclusão que sim, que ando a revelar demasiado sobre a minha vida, arrepio caminho e lá transformo aquele postem qualquer coisa que diga menos sobre mim, que mostre menos a cor e marca do meu carro, que não escarrapache de forma tão evidente os rostos das minhas crias.

O problema é quando não sou eu a partilhar estes detalhes, mas outra pessoa qualquer que estava ali perto naquele momento. E é ainda mais grave – e irritante – quando eu nem sequer conheço essa pessoa. Podem alegar que, ao estarmos num local público, estamos expostos aos olhos deles. E ao julgamento deles. Podem também alegar que, quando o fazem, não identificam a pessoa que é alvo do comentário jocoso ou do julgamento de caráter. Mas isso não torna a coisa mais certa, pois não? Ter alguém, que eu não conheço de parte alguma, a escrever no Facebook que «está um tipo careca, de óculos, voz grossa» à frente dele a comer um bolo de arroz logo pela manhã, a oferecer um gelado à filha, a dizer-lhe que ela pode comer batatas fritas mais tarde (ela come-as em festas de aniversário, e nunca em casa), a estacionar o carro desta maneira ou a discutir com a senhora dos correios por causa do carteiro, é, no mínimo, intrusivo na vida alheia. Na minha vida.
Gostam de soltar bitaites sobre o mundo em redor, ainda que isso signifique escrever um disparate sobre o desgraçado que se cruzou com ele na rua, no café, no autocarro. Tiram conclusões precipitadas sobre o que viram e não sabem interpretar, mas acreditam que dará origem a um post com muitos likes. Nada sabem sobre as circunstâncias do episódio a que assistiram, mas pouco importa. Não estão a escrever notícias no Washington Post. Estão «só» a gozar com alguém numa rede social.

Estes julgamentos sumários na internet aplicam-se também às nossas relações, claro. A forma como seguro a mão da minha mulher, as conversas que temos na fila do supermercado ou o que compramos servem também para uma radiografia que alguém poderá partilhar com pessoas que eu não conheço. Com um pouco de sorte, fotografará o nosso carrinho de compras e, Sherlock Holmes de alguidar, fica logo a saber quem prepara as refeições lá em casa, quem arruma a cozinha depois, quantas vezes temos sexo por semana e o nome de solteira da minha mãe. E, claro, lá vão as bolachas que compro para a filha parar ao Facebook, com a indicação de que devo ser uma besta de um pai negligente. E as cinco latas de grão e as dez latas de atum só podem significar que não nos preocupamos muito com a nutrição – e não que estamos a fazer uma doação para o Banco Alimentar.

Caros «opinadores profissionais do Facebook»: não sou moralista, mas por favor usem dois dedos de testa para perceber que, se calhar, vocês se precipitam nessas descargas de fel. Vá lá. Olhem para o outro lado. Contem até dez. Escrevam antes uma coisa bonita. Verão que o dia vos corre melhor.

Publicado originalmente na edição de 7 de setembro de 2014