Os pais divorciaram-se. E-mail do filho adolescente para a irmã

Ouve lá, mas tu estás-te a passar?

Mas que raio de ideia é essa de andares a mandar e-mails ao pai e à mãe, a dar bitaites sobre as redes sociais que eles devem ter, quantas vezes devem ir ao ginásio, se o Tinder é coisa boa ou má, se a mãe tem quatro ou cinco namorados ou se o pai vai para a cama com as amigas?

Eu sei que eles até te responderam e que se riram disso e que falaram com os colegas. E sei que só queres o bem deles e que estejam felizes e que a vida lhes corra bem. E não queres que eles sofram, que andem a chorar pelos cantos, a enrolar-se a torto e a direito com todos os homens e mulheres que se aproximem deles. Eu sei disso. Mas tens de os deixar ir.

Let it go, sister.
Eles são adultos. Ou melhor: os adultos são eles. Tens de deixar de ser tão protetora e cortar o cordão umbilical com o pai divorciado e a mãe divorciada, ai ai, o que é que lhes vai acontecer e agora vão sofrer tanto, ai Jesus.

Deixa-os voar. Deixa-os fazer disparates. Eles têm maturidade suficiente para saber o que é melhor para eles e o que querem. E se pelo caminho tiverem de bater com a cabeça nas paredes umas quantas vezes ou fizerem figuras parvas a publicar disparates no Facebook ou no Instagram, sinal de quem está desesperadamente à procura de namorado ou namorada – ou apenas querem curtir com alguém –, tu tens de os deixar fazer isso. Faz parte.


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Eles falaram comigo também, sabias? Estão preocupados contigo. Perguntaram-me se tu estás bem, se tens falado comigo sobre o que te inquieta, se acordas de noite… O pai pergunta se tu comes bem quando estás em casa da mãe e a mãe pergunta se comes bem quando estás em casa do pai. Sim, leste bem.

Já ando para te dizer isto há uma data de tempo, mas tu não me ligas nenhuma. Como estás sempre agarrada ao telemóvel, agora que fiquei com o pai e tu quiseste ir para a mãe, toma lá um e-mail grande, para veres se abres a pestana e deixas de ser tão protetora com eles.

Mas quantos amigos tens tu com pais divorciados? Se forem tantos como os meus, são mais os que estão separados do que os que estão juntos. Os adultos são assim mesmo. Casam e descasam, juntam-se e enrolam-se. Já não há paciência. Eu e os meus colegas já não ligamos quando isso acontece a algum de nós. Só fazemos sempre a mesma pergunta: se estão em residência alternada, como nós, a malta pergunta se as casas dos pais são muito longe uma da outra, porque isso é uma seca do caraças.

De resto, ouve… corre tudo bem. Os meus amigos estão bem e os pais também. E nós vamos ficar bem também. E os pais também. Mesmo que agora o pai tenha a mania de usar aquelas calças apertadinhas e a mãe queira ir para o ginásio a toda a hora para ficar boa como o milho.

Mete uma coisa na cabeça: há coisas que tu não controlas. Por muito que queiras almofadar o caminho e proteger o pai e a mãe, há coisas que eles vão ter de fazer. E quanto mais preocupada tu estiveres – por muito que pareça que estás divertida e a dar sugestões –, mais ansiosos e preocupados eles vão ficar.

Por isso deixa lá a mãe ter namorados do Tinder. Achas mesmo que ela vai fazer a asneira de se enfiar no carro de um gajo qualquer e ir para um beco escuro? E deixa lá o pai fazer os posts que quiser no Facebook, por muito que pareça coisa de cotas. Eles são cotas. Estás à espera do quê? Que partilhem músicas do Justin Timberlake ou vídeos do Wuant?

Cotas são cotas. E vão sempre ser. É o papel deles. E nós somos os filhos adolescentes. Eles é que se devem preocupar connosco. Eles é que devem perguntar se temos sexo desprotegido e consumimos drogas. O contrário é estranho.