Os professores portugueses estão à beira do esgotamento

Dados de um estudo provisório sobre situações de burnout indicam que os professores portugueses têm valores «altíssimos». Mas que síndrome é esta que pode torná-lo menos ativo e tirar-lhe vontade de trabalhar?

Texto de Alexandra Pedro | Fotrografia Shutterstock

Dados de um estudo provisórios sobre as situações de burnout junto dos professores portugueses estimam que estes valores estejam «altíssimos», podendo vir a ter reflexos políticos, sindicais ou jurídicos. A convicção é de Raquel Varela, coordenadora do estudo, que será apresentado na próxima sexta-feira, 6 de julho.

A historiadora acrescenta em declarações à agência Lusa que existem «três questionários validados à escala internacional» e que conseguiram recolher, «de forma voluntária, 19 mil inquéritos a professores portugueses». «Temos neste momento cerca de dois milhões de dados a serem tratados», acrescentou.

Este estudo, que acontece numa parceria entre a Universidade Nova de Lisboa, o Instituto Superior Técnico e instituições brasileiras, avalia as condições de vida e de trabalho dos professores em todos os graus de ensino incluindo os setores público e privado.

«O burnout é uma síndrome psicológica, caraterizada por elevada exaustão emocional, elevada despersonalização e baixa realização profissional, que conduz à erosão dos valores pessoais, profissionais e de saúde».

Mas, afinal, que síndrome é esta que está a afetar os professores portugueses? As definições são inúmeras, mas os primeiros sinais podem assemelhar-se.

De acordo com um estudo da Ordem dos Médicos, divulgado em 2016, o «o burnout é uma síndrome psicológica, caraterizada por elevada exaustão emocional, elevada despersonalização e baixa realização profissional, que conduz à erosão dos valores pessoais, profissionais e de saúde».

O burnout pode manifestar-se também pela incapacidade de concentração ou pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas ou tabaco.

A Oficina da Psicologia indica que os primeiros sintomas podem estar relacionados com o «sentimento de traição por parte da organização, do governo ou das estruturas», «sentimento de desânimo», «não dormir ou comer» ou sentir necessidade de se isolar.

O burnout pode manifestar-se também pela incapacidade de concentração ou pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas ou tabaco.

Raquel Varela indica que há um traço semelhante neste estudo que pode justificar os resultados. «Burnout significa que a pessoa esgotou. Colapsou. É multifatorial, mas há uma questão que estamos a concluir e que vai ao encontro com os trabalhos internacionais: há uma dissociação entre as expetativas das pessoas e aquilo que é a realidade dos locais de trabalho».

«Uma realidade profundamente hierarquizada, vigilante, corta a autonomia e tudo isso diminui a produtividade e leva ao adoecimento dos professores e dos profissionais que estão em burnout», acrescentou.

Burnout na saúde

Não só o ensino está a ser afetado por este problema. Em 2016, um estudo da Ordem dos Médicos revelou que 1728 profissionais de saúde, entre eles 466 médicos e 1262 enfermeiros – cerca de 22 por cento -, apresentaram burnout moderado. Quase metade (47,8 por cento) com burnout elevado. Entre as principais causas estão as más condições de trabalho.

Há também uma forte incidência de burnout profissional nas forças policiais. A investigadora Cristina Queirós, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, mostrou que, em 2015, o cansaço emocional e o stress crónico aumentavam junto dos polícias ao longo do tempo, especialmente quando confrontados com «mais exigências emocionais» e «cada vez menos recursos».