Pagamos aos nossos filhos para estudarem?

Estamos na recta final do ano lectivo e ouvem-se crianças e adolescentes a fazerem contas à vida, que é como quem diz, a tentarem perceber quanto dinheiro irão receber pelas notas da escola. Isso mesmo. No primeiro ciclo, os Muito Bons valem 10 euros, os Bons valem 5 e os Suficientes apenas 3 euros. Os valores sobem no segundo ciclo, havendo miúdos a receber 30 euros por cada disciplina a que tenham um 4 ou 5. No secundário, a subida é exponencial. Ora bem, o que pagam então os pais aos filhos universitários?

Esta é uma realidade mais generalizada do que possa pensar-se, transversal ao ensino público e privado, e parece não depender assim tanto da capacidade económica dos pais. Pois em boa verdade, vejo pais pagar a sua dívida (é nestes termos que as coisas são colocadas) com algum sacrifício tendo mesmo, por vezes, de recorrer à ajuda dos avós.

Penso que esta é uma realidade perversa. Diria mesmo muito perversa. Senão vejamos o que estamos a ensinar aos nossos filhos.

Estudar e aprender não é algo intrinsecamente bom, que nos faz sentir bem e que gera prazer. Não, que tolice, estudar e aprender é algo mau e por isso apenas poderá ser feito a troco de um reforço. E que esse reforço seja externo, sob a forma de dinheiro.

Ir à escola, descobrir coisas novas e perceber o mundo é como um trabalho. Logo, como qualquer outro trabalho, tem necessariamente de ser remunerado. E bem, se faz favor, que isto de trabalhos precários já não se aguenta.

Na ausência de reforço externo não vale a pena trabalharmos e sermos empenhados, pois o poder do auto-reforço é nulo.

Ir à escola, descobrir coisas novas e perceber o mundo é como um trabalho. Logo, como qualquer outro trabalho, tem necessariamente de ser remunerado. E bem, se faz favor, que isto de trabalhos precários já não se aguenta.

Os pais e os avós são a entidade empregadora dos filhos. Pagam a semanada ou a mesada, que equivale a um ordenado, e ainda um prémio por mérito. Pagam também subsídio de alimentação, subsídio de livros e propinas, subsídio de férias e de transporte (carro ou uber, porque andar a pé, de metro ou autocarro é só para alguns). E muita sorte os miúdos não exigirem também juros de mora quando os pais se atrasam no pagamento!

Os pais devem agradecer aos filhos pelas notas que estes têm na escola, e a forma de o mostrar é pagar. “Obrigado, meu filho, por teres ido às aulas, teres ouvido o que disse o professor, teres pegado nos livros e teres feito o favor de aparecer no dia do teste. Muito obrigado, agora toma lá 20 euros para veres o quanto te estou agradecido”.

Questiono-me sobre os adultos que estas crianças e adolescentes serão amanhã.

Serão adultos empenhados e gratificados, que sabem retirar prazer das mais diversas coisas da vida, mesmo aquelas que não lhes trazem outro tipo de reforços?

Serão adultos empáticos e voluntários, que ajudam apenas porque sim, sendo o voluntariado não remunerado? Serão adultos com tolerância à frustração e capacidade em adiar o prazer, focados nos processos e não tanto nos resultados?

Pois, não sei. Sei apenas que os pais, carregados de boas intenções, se sentem tantas vezes perdidos e desorientados, sem saberem muito bem como motivar os filhos para a escola e as aprendizagens. Tentam de tudo, ralham, obrigam, batem, castigam. Pagar acaba por ser a derradeira tentativa de os orientar e encaminhar.

Vivemos numa sociedade acelerada, cheia de mudanças e repleta de desafios. Repensar o equilíbrio na forma como se exerce a parentalidade parece ser o maior desafio de todos. Saber proteger sem sobreproteger. Saber orientar e encaminhar sem perder o sentimento de pertença. Saber ensinar a pescar ao invés de dar o peixe.


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