«Pai, pai, pai, a palavra pai é a mais usada lá em casa.»

João ficou sozinho com duas filhas, uma de sete e outra de doze anos, e conta o difícil e o fácil que tem sido vencer o desafio. Paulo é o principal cuidador da filha de cinco anos porque a mulher tem horários de trabalho complicados e fala da luta, tantas vezes deixada para segundo plano, que ainda é preciso travar pela igualdade. No Dia do Pai, a palavra a dois homens que escolheram ser pais.

Texto de Catarina Pires

João Torneiro costuma dizer que já teve muitas vidas. Começou na engenharia, foi oficial da Marinha, depois esteve nas OGMA na fabricação de aviões, foi professor universitário e finalmente entrou para a Galp, onde há seis anos é diretor de marketing. Pelo meio, tornou-se pai sozinho. Não quer falar das circunstâncias que a isso levaram, mas há oito anos ficou com as duas filhas, na altura com sete e 12 anos, ao seu cuidado, em exclusivo.

Desde que as teve, sempre fomentou a partilha e a intimidade. Desde que é pai que é um pai presente. Mas obviamente que a exclusividade dos cuidados lhe trouxe responsabilidades e exigências acrescidas. Nada que tenha assustado este homem de sorriso terno que gosta de ser posto à prova e não se escusa a desafios.

Aquele que à partida poderia ser o obstáculo mais difícil de transpor, porque o é tantas vezes na vida de pais e mães – o da conciliação entre a vida profissional e familiar –, revelou-se o menor dos problemas. «Tive uma grande sorte, no contexto empresarial e profissional, porque, apesar da grande exigência e de ter que viajar, sempre me foi dada muita flexibilidade de horários e, caso fosse necessário, a possibilidade de trabalhar a partir de casa. Por outro lado, tenho uma mãe fantástica, que me ajudou imenso e continua a ajudar, apesar dos seus 78 anos. Muitas vezes quando tinha que ir para o estrangeiro, ou quando uma delas ficava doente, era ela que ficava com as miúdas.»

«Não havia aquela coisa do polícia bom e do polícia mau, que dá jeito quando estamos a educar, eu tinha que fazer os dois papéis, mas isso acaba por dar uma dimensão de autenticidade e verdade importantes»

Na gestão do dia-a-dia, no entanto, era só João e as filhas. A escola, as roupas, as refeições, as compras, ir levar e buscar. Claro que nem tudo foi fácil para este autoproclamado «uber pãe»: «não havia aquela coisa do polícia bom e do polícia mau, que dá jeito quando estamos a educar, eu tinha que fazer os dois papéis, mas isso acaba por dar uma dimensão de autenticidade e verdade importantes. Como há uma grande proximidade e partilha, não posso advogar ou ter valores muito diferentes da minha prática – tenho que fazer o walk the talk, como dizem os anglo-saxónios – o que exige uma coerência grande. O lado bom é ver como isso se traduz em valor e em sentido para elas», diz o pai orgulhoso de duas filhas, hoje com 21 e 16 anos, uma já formada em Economia, a outra a caminho (está no 10.º ano, na mesma área da irmã).

Para João esta partilha maior, que implica o constante ecoar da palavra pai – «não há muito silêncio lá em casa, é pai, pai, pai o dia todo» – é uma bênção e um privilégio: «falamos muito os três, eu conto-lhes as minhas coisas, elas contam as delas, digo muitas vezes às minhas filhas que as amo e também tenho a sorte de ouvir mimos que se calhar outros pais não ouvem tanto».

«Tem sido um desafio, mas ser pai sozinho é uma faceta que me permitiu crescer. Não seria o homem que sou hoje se não tivesse passado por isto.»

João está convencido de que as coisas estão a mudar, mas sabe, de experiência vivida, que os papéis de pai e mãe continuam preenchidos de estereótipos. «O pai ainda não é muito entendido como cuidador. Uma vez um assistente social teve uma conversa absolutamente anacrónica com uma das minhas filhas, questionando-a sobre com quem é que ela falava de assuntos como o sexo ou a menstruação, a miúda ficou chocada e contou-me e eu fui lá no dia seguinte explicar-lhe que ele estava errado. Disse-lhe: “Vim cá só para o senhor perceber que o mundo mudou. As minhas filhas falam comigo sobre tudo. Os preconceitos são seus e fazem mal a si e aos outros”».

De resto, preconceitos encontrou poucos. E às «dificuldades de género» ultrapassou-as com resiliência. A questão das roupas, facilitada pelo facto de andarem num colégio, pô-lo à prova. «A farda foi uma benção, mas lembro-me de num Natal querer oferecer-lhes roupa e ter ido a uma dessas lojas de que elas gostam e que têm oferta mais variada e ter pedido ajuda a uma empregada que me parecia ter mais bom gosto e ela me ter arranjado uns conjuntos que foram um sucesso. Elas acharam que o pai percebia imenso de moda.»

Não se considera o melhor pai do mundo, tem imensas dúvidas, às vezes engana-se, mas não trocava esta experiência por nada. As filhas passaram a ser a sua prioridade. E representaram um crescimento pessoal. «Tem sido um desafio, mas assim como digo que tive várias vidas, esta é mais uma faceta que me permitiu crescer. Não seria o homem que sou hoje se não tivesse passado por isto.»

«Adoro ser pai»

Paulo Guerrinha, jornalista como a mulher, Mónica Silvares, sempre quis ser pai, mas teve de adiar o «projeto» devido ao investimento da mulher na carreira. Tiveram a filha «in extremis», diz ele, há cinco anos, tinha ela 38 e ele 43.

Os horários mais exigentes de Mónica e o foco desta na carreira e num trabalho muitas vezes demasiado absorvente levam a que seja Paulo quem passa mais tempo com a filha, veste, dá banho, dá o pequeno-almoço, leva e traz da escola, brinca, dá jantar, deita.

«Criar condições para que homens e mulheres tivessem mais tempo para estar com os filhos e cuidar deles deveria ser o foco da luta pela igualdade»

Não se vê, no entanto, como super-herói, super-pai ou coisa que o valha. «Não faço mais do que a minha obrigação. Não abdiquei da carreira para ficar em casa com a minha filha, simplesmente tenho uma disponibilidade de horários que me permite estar mais presente», diz, salvaguardando que, apesar disso, gostaria que existisse maior partilha, no que à filha diz respeito. «Às vezes, gostava de não ser sempre eu a ficar em casa quando ela está doente, por exemplo.»

O problema na perspetiva de Paulo é de uma cultura empresarial que, em Portugal, está longe de ser amiga da família e privilegia uma dedicação absoluta ao trabalho: «o foco das lutas pela igualdade de género devia passar por criar condições para que homens e mulheres tivessem mais tempo para estar com os filhos e cuidar deles, flexibilizando horários de trabalho e não olhando de lado para quem trabalha a partir de casa, por exemplo», diz.

Lá em casa, as tarefas domésticas são partilhadas, até porque Paulo foi criado por uma mãe que o ensinou a ser autónomo e não depender de nenhuma mulher, mas o tempo com a cria é gozado sobretudo por ele, o que deixa a mãe, na opinião do pai, numa situação de «desvantagem». Um filme que vemos tantas vezes, mas com os papéis invertidos.

«Mesmo que a minha mulher tivesse horários mais normais, eu não deixaria de estar presente como estou.»

«É uma escolha dela, a Mónica é mais focada na carreira e tem uma entidade patronal menos flexível do que eu, o que a leva muitas vezes não ter horas de chegar a casa e há momentos em que a miúda se ressente da falta da mãe. Ao fim de semana nem pode ouvir falar do Marques Mendes e do Paulo Portas», diz o pai, a rir. «Mas isso não significa que não tenha uma relação fantástica com a mãe.»

Para ele, que conta muito com a ajuda do sogro, pai de Mónica, para os cuidados da miúda, o tempo que passa com a filha é impagável: «Mesmo que a minha mulher tivesse horários mais normais, eu não deixaria de estar presente como estou. Temos uma relação cinco estrelas. Há uns tempos, estive um dia em Amesterdão e ela ressentiu-se, assim como eu, de não estar lá para lhe dar o jantar e a deitar. Adoro ser pai. Adoro a minha filha.»