Pais e mães, não desistam dos vossos filhos

Este é o apelo que mais tenho feito nos últimos tempos. A pais e mães extenuados e já sem forças para continuar, derrotados por anos e anos de processos judiciais desgastantes e sem qualquer solução à vista. Falo de pais e mães injustamente afastados do convívio com os seus filhos e que se deparam, em algum momento do processo de separação ou divórcio, com numerosos obstáculos a uma saudável relação com as crianças, numa sucessão infindável de incumprimentos e incumprimentos daquilo que está acordado, escalando muitas vezes para acusações de maus tratos e abuso sexual. Noutras situações, ainda, veem as suas crianças desaparecer de um dia para o outro, subtraídas para um qualquer país do mundo.

Apoiam-se nos seus advogados, peças fundamentais deste jogo de xadrez e, tantas vezes, no psicólogo. Pedem ajuda para si mesmos, como forma de conseguir ultrapassar tamanhas provações.

Ultrapassada uma fase inicial de choque e incredulidade, estes pais atravessam depois etapas diferentes, umas mais marcadas pela ansiedade e humor depressivo, outras pela zanga, revolta e desejo de vingança. Pelo meio, momentos em que acreditam que justiça será feita e, outros, em que o descrédito fala mais alto. Apoiam-se nos seus advogados, peças fundamentais deste jogo de xadrez e, tantas vezes, no psicólogo. Pedem ajuda para si mesmos, como forma de conseguir ultrapassar tamanhas provações. Tantos outros recorrem à medicação, tentando manter algum nível de funcionalidade, num esforço de adaptação a uma crise para a qual nada os podia ter preparado.

Durante algum tempo, estes pais agem e reagem. Mas quando o tempo passa, e torna a passar, e nada acontece… muitos destes pais equacionam desistir. Desistir é exactamente o termo que utilizam. Baixar os braços e render-se, porque, efectivamente, é numa guerra permanente que vivem. Deixam de acreditar que o sistema profissional os possa ajudar e são invadidos por um estado de desânimo e desesperança face ao futuro que supera todas as suas forças. Deixam de conseguir trabalhar, focados apenas no processo judicial, nos diários em que relatam de forma obsessiva os minutos e os segundos em que falam com os filhos, ou os veem à distância… ou nada disso. Procuram no baú da sua memória lembranças a que se agarram desesperadamente, folheiam álbuns de fotografias e recordam. Porque recordar é apenas o que lhes resta.

Desistir é permitir que a criança, mais tarde, olhe para trás e pense que o seu pai ou mãe desistiu de si.

A todos estes pais e mães que equacionam desistir, penso que é importante transmitir uma mensagem muito clara.

Desistir é permitir que a criança viva privada de um direito que é fundamental e inquestionável – o direito a conviver com ambos os pais e a receber destes o amor, suporte e atenção que merece.

Desistir é permitir que a criança, mais tarde, olhe para trás e pense que o seu pai ou mãe desistiu de si. Criando dentro de si um vazio imenso e uma sensação de abandono.

Desistir é não permitir sequer que o sistema profissional (imperfeito, é verdade, e do qual também eu faço parte) tente encontrar uma solução que satisfaça os interesses da criança.

Desistir não é opção. Não pode ser opção. Por mais dolorosos que estes processos sejam e por mais recursos que eles exijam, confiem e persistam. Pelos vossos filhos.