Pais Uber

À porta das escolas, das actividades extra-curriculares, em restaurantes ou casa de amigos, entre tantos outros locais, assistimos a uma realidade inegável. Jovens sem autonomia, levados e trazidos pelos pais, seja de dia ou de noite. Jovens sem capacidade ou disponibilidade para utilizar transportes públicos ou andar a pé.

Pais que vivem e organizam as suas agendas em função destes horários.
Pais que não almoçam porque têm de levar e trazer os filhos, entre a escola e as actividades.

Pais que se levantam a meio da noite para ir buscar os filhos após as suas saídas.
Diria que são os modernos “Pais Uber”. Vejamos as consequências que este comportamento parental pode ter no processo de desenvolvimento dos filhos.

A família desempenha duas importantes funções para a criança. A chamada função interna, de estabelecimento de vínculos afectivos e sentimentos de pertença, a par da função externa, que permite e facilita a socialização e integração social. É desejável um equilíbrio entre estas duas funções, facilitando um desenvolvimento mais adaptativo e harmonioso.

Uma criança que cresce num contexto afectuoso e seguro, ao mesmo tempo que lhe permite e incentiva a exploração ambiental é, seguramente, uma criança com mais recursos internos e menor probabilidade em apresentar sintomatologia. Torna-se mais adaptada, com melhor auto-estima, mais segura e confiante na forma como explora o seu meio, como interage e socializa.

Perante isto, diríamos que os ‘Pais Uber’ comprometem, de alguma forma, ambas as funções. Sempre presentes e hipervigilantes, demasiado protectores e, por vezes, mesmo claustrofóbicos, acabam por poder transmitir à criança, ainda que de forma não intencional, que o mundo é perigoso e ameaçador. E crescer com esta percepção do mundo tem consequências significativas no desenvolvimento da criança, com aumento de ansiedade e desconfiança relacional.

Paradoxalmente, estas crianças ou jovens acabam por ficar mais desprotegidos! Não sabem identificar as situações de perigo e não possuem recursos para lidar com as mesmas de forma adaptativa.

Vivemos hoje numa sociedade muito centrada no risco e no perigo. Alertas constantes sobre as crianças que se perdem e a necessidade de pulseiras com a respectiva identificação. “Apps” que permitem localizar todos os elementos da família a qualquer momento. O perigo dos raptos e dos abusos sexuais. Medo, desconfiança.

As situações acima referidas existem, naturalmente, e exigem o desenvolvimento de estratégias de prevenção primária e intervenção. Proteger a criança é o principal objectivo.
Mas onde acaba a protecção e começa a sobreprotecção?

De uma forma gradual, tendo em conta a idade, nível de desenvolvimento e maturidade da criança, deve ser incentivado um processo de autonomia. Crianças mais novas podem e devem começar a realizar algumas tarefas domésticas. À medida que crescem, devem assumir diferentes responsabilidades e aprender a lidar com as dificuldades e a frustração.

Ouvir “não” não traumatiza. Ajuda a crescer com limites claros e de forma mais estruturada. Aumenta a resiliência e a capacidade para lidar com as adversidades.

O equilíbrio entre proteger e assegurar a segurança das crianças e jovens vs permitir a sua progressiva autonomia é, efectivamente, um equilíbrio difícil de ser conseguido. Mas cabe aos pais e cuidadores tentar encontrá-lo.

As crianças e jovens não precisam de “Pais Uber”. Precisam de pais presentes e atentos, protectores e securizantes e que, ao mesmo tempo, lhes dão espaço para experimentar e arriscar. Cair nos baloiços, arranhar os joelhos, sujar-se, sentir alguma ansiedade quando experimentam coisas novas, mas experimentam.

As crianças e jovens precisam de crescer com rede, sim, mas que esta rede seja retirada de forma progressiva.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.

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