Para si, que dá umas chapadas à sua mulher

Pensei muito antes de lhe escrever uma carta destas. Não queria fazê-lo de ânimo leve. Ou, pior ainda, de cabeça quente, depois de ler um qualquer artigo sobre violência doméstica, sobre casas de abrigo para mulheres maltratadas, sobre um julgamento em que um homem foi condenado e uma mulher recebeu uma indemnização miserável ou sobre filhos que crescem em ambientes descompensados. Já ando com esta ideia na cabeça há uma série de tempo e não sabia bem como fazê-lo, porque queria ter a certeza que isto chegava a bom porto. Queria ter a certeza que a leria. Que você a leria. Espero que o título tenha captado a sua atenção.

Também não queria cair num populismo exagerado. É que, sabe, escrever uma carta a um marido abusador e dizer que ele é uma besta e que um dia terá o que merece… isso é fácil. A sério. Qualquer pessoa pode fazê-lo. Qualquer pessoa lho pode dizer. Até o seu vizinho do lado. Ou de baixo. Ou de cima. Um desses que desconfia do que se passa na sua casa, porque ouve a sua mulher a gritar e os seus filhos a chorar. Um desses que já por mais que uma vez teve vontade de ir aí, bater-lhe à porta, e enfiar-lhe um soco no nariz, para o deixar, a si, como o leitor deixa a sua mulher às vezes – e só não o fez porque a mulher dele não o deixou. Porque você é maluco. Porque pode ter uma arma. Porque «com pessoas assim nunca se sabe»… Um desses vizinhos que até já pegou no telefone para ligar para a polícia e denunciar o que se passa aí, entre quatro paredes. Entre as suas quatro paredes. Numa dessas até já enfiou a cabeça da sua mulher, lembra-se?

Como o que você faz é um crime público, qualquer pessoa pode denunciá-lo. Sabe isso, não sabe? Não precisa de ser a sua mulher. Ou a sua filha. Também pode ser o tal vizinho que baixa os olhos quando você entra no elevador, porque tem vergonha alheia. Vergonha de viver no mesmo prédio. Vergonha de saber e não fazer nada.

Eu gostava mesmo de poder dizer «tenha cuidadinho, algum dia a coisa corre-lhe mal, e o irmão da sua mulher faz-lhe uma espera». Mas, se calhar, o irmão da sua mulher faz o mesmo à mulher dele. Ou então a sua mulher tem vergonha de contar à família. É normal. Há muitas mulheres, por esse país fora, a sofrer em silêncio por uma vida inteira de humilhações às mãos de pessoas como o leitor. Como você. E não é fácil ganhar coragem para dizer «já chega!» Nem é fácil de vender o medo…

Eu também gostaria de escrever: «olhe que ainda leva com um tijolo na pinha e fica em mau estado». Seria o karma a funcionar. Sabe… o karma. Aquilo que nos faz pagar pelo que fazemos aos outros, para depois nos arrependermos. Mas isto nem sempre se passa assim. Às vezes o karma funciona muito tarde e o arrependimento só chega em fim de vida – da sua vida. Tarde de mais para a sua mulher, não?

No fundo, o que eu queria mesmo é escrever o seguinte: há outro caminho. Se ainda não foi preso, se ainda não foi acusado pelos vizinhos de maltratar a sua mulher, se ainda não levou um arraial de pancada dos seus cunhados e – mais importante – se ainda não se arrependeu do que anda a fazer… Pense que já é altura de parar. De uma vez por todas. Há mesmo (!!) outro caminho que pode seguir. Lá está, agora estou a ser paternalista. Também não quero isso. Só quero lembrá-lo daquilo que já deve saber: que o facto de ter crescido num ambiente em que o seu pai batia na sua mãe não serve de desculpa ou justificação para bater na sua mulher. Quanto mais não seja, porque são esses comportamentos que está a passar aos seus filhos. Aos filhos dela. E às suas filhas também. E já agora, já que falo disso… psssr! Venha cá. Pense no seguinte: a sua filha, sabe…? Essa rapariga (ou raparigas) que vive aí consigo e que gostaria de proteger de qualquer anormal que lhe queira fazer mal… Ao fazer o que faz com a mãe dela, está a dizer a essa rapariga que pode vir um tipo qualquer (desde que seja mais alto, mais forte e mais bruto do que ela) e bater-lhe também…

E, já agora, essa justificação que passa a vida a dar, de que só faz aquilo porque ama muito a sua mulher e só quer protegê-la e tem medo de a perder… isso é uma desculpa palerma em que já nem ela acredita. Ela tem é medo. E isso é diferente. Tem medo de si, tem medo do que você pode fazer aos filhos e tem medo de perder essa estranha e doentia dependência que vos une.

Por este país fora há centenas de técnicos especializados, de várias áreas, a trabalhar diariamente para que pessoas como o leitor parem de fazer as coisas que faz a pessoas como a sua mulher. Ou para que, já que não o conseguem evitar, pelo menos possam ajudar as mulheres a recuperar parte da dignidade perdida. E você? Ainda vai a tempo de recuperar a sua? Ainda vai a tempo de conseguir voltar a ver-se ao espelho?

P.S.: Isto também pode ser lido por mulheres. Não as vítimas. As outras. As abusadoras. As que continuam, mês após mês, ano após ano, a moer o ego dos maridos. A responder-lhes mal. A tratá-los abaixo de cão. A exercer violência psicológica sobre eles. A menorizá-los. A compará-los constantemente com outros homens. A exigir este mundo e o outro e a lembrá-los, constantemente, que estariam bem melhor sem eles – mas não se vão embora porque não conseguem e porque sabem que eles também não. Sim, isto é para elas também. Para ficarem a pensar no que fazem. E na vida que não vivem nem deixam viver.

NOTA: Esta versão da crónica foi revista e aumentada em relação ao texto que foi publicado na Notícias Magazine a 16 de Fevereiro de 2014.