Combater o desequilíbrio e a rigidez muscular dos doentes de Parkinson

Os benefícios são evidentes, mas Josefa Domingos, responsável, no Bounce, pela fisioterapia de seis doentes com Parkinson, ainda está na fase de investigação. À DN Life, a especialista diz não ter dúvidas sobre as vantagens do trampolim.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia DR

O ioga melhorou a estabilidade da postura, a capacidade de andar e reduziu o risco de cair, de doentes com Parkinson, de acordo com um estudo publicado recentemente na Evidence-based Complementary and Alternative Medicine.

O programa de oito semanas mostrou melhorias naquelas que são duas das maiores debilidades deste tipo de doentes: a marcha e o equilíbrio. O tipo de ioga aplicado, de acordo com a Psychology Today, foi o Hatha ioga, que combina a mente e o corpo com uma série de posições de respiração.

Desta vez, as evidências são dos participantes que, no final do programa, mostraram melhorias significativas ao nível do equilíbrio, estabilidade e mobilidade, reduzindo o risco de queda. Progressos semelhantes aos descritos por Josefa Domingos, fisioterapeuta especialista em Parkinson, que acompanha seis doentes com a mesma doença, num programa feito em trampolins.


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Ainda em fase de investigação, a especialista confirma que sempre utilizou o trampolim na fisioterapia com os doentes de Parkinson, mas que quando descobriu o Bounce – espaço em Lisboa com mais de 100 trampolins disponíveis – percebeu «que os doentes não se importavam de estar ali a fazer exercícios variados rapidamente» e que tinham uma segurança diferente, de «liberdade».

«Quando soube que existia este espaço [o Bounce], onde conseguia realmente treinar a marcha e as quedas, foi muito bom para mim. Quando lá fui a primeira vez não sabia quem estava mais contente: se eram os doentes, se era eu», diz, em entrevista à DN Life.

A fisioterapeuta, ligada à Associação Portuguesa de Doentes com Parkinson, começa por explicar que esta «é uma doença degenerativa do sistema nervoso central, caracterizada essencialmente por quatro sintomas base: o tremor – que é o mais conhecido e que predominantemente leva mais pessoas ao médico -, a lentidão dos movimentos, a rigidez e a instabilidade – relacionada com o desequilíbrio». «É nesta última que ainda não existe um tratamento farmacológico eficaz, o que torna essencial o exercício da fisioterapia», acrescenta.

«O treino de equilíbrio já se faz através dos trampolins há vários anos. O que acontece é que normalmente faz-se em meios bastante controlados»

A trabalhar nesta área há cerca de 14 anos, Domingos não vê na sua fórmula nenhuma inovação, mas considera que o facto de o Bounce ser um espaço aberto e sem perigos para os pacientes os deixa mais à vontade e com maior vontade.

«O treino de equilíbrio já se faz através dos trampolins há vários anos. O que acontece é que normalmente faz-se em meios bastante controlados e, para conseguir que a pessoa não caia no dia-a-dia, é preciso que treine as suas quedas. É por isto que é necessário um meio seguro, onde o doente sinta que pode fazer o movimento sem ter medo. Isto é muito importante porque desta forma os doentes tentam mais e testam os seus limites», afirma.

«Se quero melhorar o andar, tenho que fazer mais treino de marcha e de passadeira. Mas realmente, se quero treinar as quedas, tenho que deixá-los cair e, neste caso, nos trampolins, consigo que caiam de forma controlada», prossegue a fisioterapeuta.

Josefa Domingos treina entre duas a três vezes por semana no Bounce com seis doentes de Parkinson

Sara Riggare, que vive em Estocolmo, Suécia, e que tem a doença há mais de 30 anos, foi uma das doentes de Josefa Domingos cujos benefícios do trampolim foram desde logo evidentes. A doente, explica a fisioterapeuta, tinha uma característica na sua marcha, chamado de «freeze» (congelar), em «que ficava com os pés colados no chão e isso era o motivo das suas quedas».

«Com Parkinson e, na verdade, com qualquer problema que tens na vida, tens de encontrar o apoio certo e algo que consideres divertido de fazer. E não tenhas medo de experimentar, porque tudo ajuda», disse Sara Riggare, em pleno trampolim.

Atualmente, Josefa Domingos treina entre duas a três vezes por semana no Bounce com seis doentes de Parkinson. Apesar de ainda estar em fase de investigação – lembrando que este projeto só iniciou em setembro último -, considera que há benefícios transversais.

«Uma das frases mais populares entre eles é que sentem as pernas mais leves e sentem-se também mais estáveis, porque depois de estarem num trampolim o chão parece mais seguro», diz a fisioterapeuta, que considera que são evidentes as melhorias na marcha, na segurança e na fadiga.

HÁ UMA ESTIMATIVA DE 20 mil portugueses afetados por esta doença

No entanto, esclarece ainda, os treinos são aplicados de forma diferente a cada doente, «variando consoante as necessidades que apresentam». Além do registo em vídeo, para que os doentes consigam perceber os progressos que têm feito, Josefa Domingos considera também muito relevante o facto de a família participar na fisioterapia, para dar o suporte necessário.

Com uma estimativa de 20 mil portugueses afetados por esta doença, Josefa Domingos espera conseguir ajudar mais pessoas a progredirem naqueles que são os sintomas mais evidentes desta doença e, apesar de ainda não ter certezas sobre o futuro, ensinar em Portugal, para que exista formação no país.