28 minutos com Sting. E um arrependimento para a vida inteira

“Aproxime o seu gravador, por favor. Eu canto alto, mas falo baixo e devagar.” Foram as primeiras frases que Sting me disse com o microfone aberto. As primeiras que ouvi quando transcrevi a entrevista, no dia seguinte. E foram as mesmas a que recorri várias vezes enquanto escrevia o texto que haveria de acompanhar a entrevista publicada na Notícias Magazine. Eu precisava daquilo. De ouvir a voz do homem, o tom pausado, o sotaque, a cadência das palavras. Precisava daquela banda sonora entoada rouca para escrever em condições sobre o que tinha sido aquela conversa.

Foi há três anos, em setembro de 2016, num dia reservado pela Universal Music para despachar 12 entrevistas para 12 órgãos de comunicação escrita de 12 países europeus. Sting estava a promover o álbum 57th & 9th e eu era o único português de uma longa maratona que tinha começado às oito da manhã e acabava comigo. Estava marcado para as 14h45 e tinha direito a vinte minutos. Não podia haver atrasos e até os cinco minutos que eu iria demorar desde a receção do Langham até à Regent Suite, no quinto piso da nova ala do hotel em Portland Place, Marylebone, estavam contabilizados. Deviam estar contabilizados. Eu devia saber isso, para garantir que não me atrasava.

Acabei por ter sorte com a hora. Ao não ter ninguém depois – antes de mim tinha entrado um holandês com algumas perguntas parecidas com as minhas, que eu ouvi, o que ainda me permitiu alterações de última hora – garantiu-me tempo extra de Sting.

As grandes empresas distribuidoras de música têm de garantir que as estrelas maiores do seu firmamento não têm de esperar por jornalistas. O contrário podia acontecer. Mas Sting esperar estava fora de questão. Além disso, não é nada polite fazer alguém esperar. Muito menos um inglês.

Acabei por ter sorte com a hora. Ao não ter ninguém depois – antes de mim tinha entrado um holandês com algumas perguntas parecidas com as minhas, que eu ouvi, o que ainda me permitiu alterações de última hora – garantiu-me tempo extra de Sting. No total foram 28 minutos que deram para falar de música, viagens, política, do medo da morte, de canções antigas e novas, da vida de um inglês em Nova Iorque, do dinheiro que os filhos não vão herdar e, claro, do Brexit.

Há maiores fãs de Police e de Sting do que eu, claro. Que têm os cinco álbuns da banda e os 12 do músico a solo. Que sabem as canções todas e as histórias por detrás delas. Que conhecem os lados B dos singles, os virtuosos com quem já tocou, os pares que o influenciaram, as homenagens de que foi alvo. Há quem saiba mais sobre Gordon Summer (o nome verdadeiro) a dormir do que eu acordado depois de horas a empinar informação sobre ele.

Mas naquele dia, naquela tarde em Londres, era eu que estava ali. Na altura não tive tempo para pensar na sorte tremenda que tinha, eu estava apenas empenhado em fazer um bom trabalho e mostrar que me tinha preparado. Queria muito ter falado mais tempo sobre aquilo de ser um legal alien a viver em Nova Iorque e das saudades do Reino Unido, para lá da resposta politicamente correta que me deu: “Sempre me senti um extraterrestre lá e isso é bom para a minha criatividade”. Mas o toque britânico esteve sempre presente. Até na chávena de chá vazia sobre a mesa e nas palavras cruzadas parcialmente preenchidas do Financial Times dobrado junto à mochila de couro. E, claro, no tom de desprezo com que falou de Donald Trump e Nigel Farage, líder do UKIP.

No final, acabámos por sair os três juntos, eu, Sting e o agente, e andámos uns cinco minutos perdidos à procura da saída do hotel. E durante todo esse tempo e na viagem no elevador apertado, tão empenhado estava em ser um cavalheiro que não tive coragem para pedir para tirar uma fotografia com ele. Armei-me em reservado e discreto e não quis estragar um momento tão elegante. Ainda hoje me arrependo. Acho que o farei sempre.