Aleitamento materno: o pai pode falar disso?

Não sei se a lista existe, disponível em algum blogue de mães – essa poderosa ferramenta de partilha de desabafos, dicas, oportunidades de vestuário e bitaites médicos avulsos. Mas aposto que no top dos temas controversos associados à maternidade (leia-se “capazes de gerar furiosas trocas de opiniões no Facebook), o aleitamento materno estará entre os mais votados. Não porque haja margem para dúvidas sobre as vantagens do leite da mãe. As recomendações da Organização Mundial de Saúde são claras: aleitamento materno até aos 2 anos, exclusivo até aos seis meses. E, em termos de desenvolvimento infantil, os senhores da OMS percebem do assunto. Eles baseiam-se numa coisa chamada ciência e isso costuma ser fonte segura para a tomada de decisões. As discussões acaloradas resultam de outro factor: o extremar de posições perante o que se tornou, nos últimos quarenta anos, uma opção.

Não há propriamente movimentos contra o aleitamento materno. Além de errado, seria estúpido (ou ilegal) defender que os suplementos são melhores do que o leite da mãe. Com tanta campanha de sensibilização, já ninguém se deixaria enganar. Nas décadas de 1960 e 1970, com o marketing agressivo das marcas de leite em lata, talvez. Hoje não. Hoje há, isso sim, enraizada na população, uma equiparação errada entre as duas opções. Uma, que devia ser a regra, e outra, que devia ser a excepção – e só por indicação médica.

Quem opta por dar de mamar, nem sempre percebe os argumentos de quem não o faz. Quem não dá de mamar, nem sempre entende por que razão as mulheres se sujeitam a isso. Junte-se uma rede social e hormonas em ebulição e o resultado pode ser explosivo. Mas isto vai muito além das discussões estéreis no Facebook. É uma questão de saúde. Dir-me-ão que falamos de biberões, não de maus tratos – certo. E que na vossa dinâmica familiar mandam vocês e não a OMS – sim. E que o corpo é vosso, mamas incluídas, e fazem delas o que querem – claro. E que, se calhar, alguns dos mais saudáveis, inteligentes e ricos seres humanos que admiramos foram alimentados a biberão – ok. E que não é por não darem de mamar que são piores mães – obviamente Ainda assim, é de saúde que se trata.

Amamentar ou não amamentar: a escolha é da mãe. Mas, se calhar, faz sentido partilhá-la com o outro adulto lá de casa. É que ele poderá ter uma palavra sobre o assunto. Não foi ele que transportou o filho no ventre, que o protegeu durante nove meses, que viu o corpo alterado. Não foi ele que o pariu. Mas o papel dele nesta história não é menos importante. E, neste caso particular, no apoio que pode dar à mãe que amamenta, é determinante. Porque há dias maus. Dias em que dói, em que parece que as mamas vão rebentar. Dias em que o cansaço é tal que só apetece chorar. Dias em que a mãe não se sente bem com o corpo. Nesses dias, sobretudo nesses dias, o pai é essencial. Quanto mais não seja, para lembrar que ela pode pedir ajuda profissional. Ou apenas para ouvir o desabafo. Ou para baixar o estore para ela poder descansar durante dez minutos. Ou, até, para poder servir de saco de pancada durante algum tempo. Não vai durar sempre. E no fim vai compensar.

Publicado originalmente na revista Pais & Filhos (julho 2015).