Aprender a escrever: obrigado à professora Maria Emília e à professora Isabel

Na semana passada foi o X. Não chegou a casa a dizer que o sabia ou que já o tinha aprendido. Soube-o porque um dia, quando a fui buscar, naqueles minutos em que estamos sozinhos antes de chegarmos à escola da irmã, a ouvi a falar sozinha, baixinho: “Xa-vi-er. Xai-le. Xi-lo-fo-ne.” Eu não disse nada, nessas alturas a Carolina gosta de estar absorta no mundo dela e já aprendi que é melhor entrar em contexto e introduzir o tema de forma ligeira do que lançar a pergunta. “Então hoje aprendeste o X na escola?” não é abordagem mais eficaz. Ela logo o dirá, mais hora menos hora. Quando quiser. Ter filhos é também isso: ver os sinais e o espaço deles. E respeitar ambos. Com todas as letras.

Foi assim ao longo do ano letivo que está agora a chegar ao fim. À medida que os meses se sucediam, ela avançava pelo abecedário adentro. Não por ordem alfabética, que o método não é esse, mas entre o outono e a primavera a minha filha aprendeu a ler e a escrever. Fez brincadeiras com os sons, desenhou letras, descobriu sílabas, construiu palavras, inventou frases. Viajou do desconhecido para o saber que a leitura lhe permite. Das trevas para a luz. Agora já não precisa de ajuda para ler parte do mundo. Para o compreender, sim. Para o ler, já não.

As letras ainda não lhe saem perfeitas, o tamanho continua meio atabalhoado, os hífenes ainda aparecem fora do sítio. Mas vê-la a traçar os símbolos que significam tanto e perceber-lhe o deslumbramento com o que acaba de criar é o mais parecido que encontro com os primeiros passos que deu. Até aqui precisava de desenhos e de acreditar que o mundo tinha tanta imaginação como ela. Agora percebe que domina os códigos dos crescidos e consegue comunicar com eles da mesma forma. Melhor: consegue colocar num papel, cá fora, o que sente lá dentro, da alegria à tristeza, do amor à gratidão – passando pelos pedidos de presentes para o aniversário. Descobriu que sentimentos também se escrevem. E que nós os entendemos. Para uma criança, é uma vitória. Para mim é o fim de uma era e o início glorioso de outra.

A minha filha sabe ler e sabe escrever e, com isso, conquistou uma independência que nunca tinha tido. Apertar os atacadores, tomar banho, vestir-se, tudo isso são marcos de autonomia importantes. Mas ela sabe que ler e escrever lhe abrem horizontes que nunca tinha tido. Não assim. Não sozinha. Para ler e para escrever ela já não precisa do pai e da mãe. Já não precisa de ninguém.

E agora não consegue parar. Lê letreiros, cartazes, legendas, anúncios, manchetes, títulos. Com a campanha para as Europeias em marcha, perguntava-me o significado de “iniciativa”, o que era “emprego”, para que servia a palavra “imposições” e quem são os “contribuintes”. Talvez em outubro, nas legislativas, eu consiga explicar-lhe que “de-ma-go-gi-a” tem cinco sílabas e “po-pu-lis-mo” tem quatro e que uma anda de mão dada com a outra. Mas uma coisa de cada vez.

Não me lembro como aprendi a ler e a escrever com a professora Maria Emília, mas sei que é a ela que o devo. Erradamente, nunca lhe disse obrigado por isso, mas, no dia em que ela morreu, eu e alguns dos colegas de primária agradecemos aos filhos dela por todo o mundo que ela nos ajudou a descodificar.

Quando chegar a altura – sempre no espaço dela e no tempo dela, como acontece com tudo –, a Carolina poderá dizer obrigado à professora Isabel, que lhe tem ensinado tanto nos últimos meses. Eu vou fazê-lo daqui a três semanas, quando acabarem as aulas. Obrigado por todo o mundo que deu a conhecer à minha filha entre o outono e a primavera. Depois do verão haverá mais.

Se calhar devíamos fazer isto mais vezes: agradecer aos professores. Eles merecem. E, muitas vezes, eles precisam.