Do que me arrependo mais

Arrependo-me mais das coisas que não fiz ou não tentei fazer do que das que fiz e correram mal. A frase é tão estafada que nem chega a ser cliché. Está para lá de cliché. É um supercliché. Uber-cliché. Na verdade, é tão cliché que é capaz de ser…verdade. Verdade, mesmo. Real. Se uma mentira mil vezes repetida se torna verdade, um cliché mil vezes jurado a pés juntos torna-se o quê? Uma verdade universal.

Os arrependimentos são uma constante ao longo da vida. Arrependemo-nos a toda a hora, constantemente, nas microdecisões que tomamos numa fração de segundo. Devíamos ter virado à esquerda e não à direita naquele cruzamento porque teríamos evitado este trânsito. Devíamos ter ido primeiro ao corredor das bolachas e só depois ao dos frescos, porque evitávamos esborrachar os iogurtes ou porque ficávamos mais perto das caixas de pagamento no supermercado. Devíamos ter vestido a camisola azul e não a verde porque vai melhor com o casaco que agora já não temos pachorra para ir trocar.

Aprendemos, à medida que crescemos, a lidar com estas sensações de «podia ter feito diferente», sobretudo se não tiverem grande influência nas decisões macro que tomamos.

Todos os dias me arrependo de não passar mais tempo com as minhas filhas. Mesmo nos domingos de chuva, ao fim da tarde, quando elas já estão tão fartas de estar em casa que são difíceis de aturar

Mas depois há os outros arrependimentos. Os grandes. Os que nos levaram a tomar um rumo diferente na vida e só conseguimos perceber quando vivemos anos suficientes para ver tudo em perspetiva. E aí vamos todos mais ou menos bater ao mesmo: romance, família, educação, carreira, finanças, saúde. Os grandes temas da nossa vida adulta moldam-nos o caminho e moldam-nos os arrependimentos também. É pelo menos essa a conclusão dos artigos que li sobre «arrependimento» nos últimos dias.

Tudo começou quando tropecei numa reportagem de um canal de televisão que se chamava «What I regret the most» – «Do que me arrependo mais» –, na qual falaram com familiares de pessoas em fim de vida que conseguiram recolher, junto destes, os últimos desejos e última lista de arrependimentos. Poderia ser uma questão de edição e escolha do realizador, mas a verdade é que ninguém falou da viagem que não fez ou da refeição que não comeu. O beijo que não deu ou o salto de empresa que não conseguiu ter coragem para assumir, isso sim, fazia parte do balde.

Todos os dias me arrependo de não passar mais tempo com as minhas filhas. Todos os dias. Mesmo nos domingos de chuva, ao fim da tarde, quando elas já estão tão fartas de estar em casa que são difíceis de aturar e eu só quero é ter dez minutos sossegado na casa de banho…mesmo nesses momentos eu arrependo-me de não estar mais vezes com elas. Para assim não ser tão sôfrego nos momentos em que estou. E nos dias em que chego a casa e elas já dormem. E nos dias em que preferem a mãe para coisas tão simples como apertar o casaco ou pôr uma manta nas pernas – porque a mãe está mais tempo com elas.

Todos os dias consigo apaziguar-me com os meus arrependimentos, para não passar a vida angustiado. Até ao dia seguinte, em que me arrependo novamente.