O beijo mais épico do cinema é meu

Deviam faltar cinco minutos para o fim do filme. Ou menos. Aquilo estava quase a acabar, disso tenho a certeza. Até podiam ser dez minutos, mas, para mim, para o meu top de oportunidades desperdiçadas, aquele momento irá sempre saber aos últimos segundos dos créditos finais. Isso e mentol. O dia em que eu beijei a Patrícia vai sempre saber a segundos finais e à pastilha de mentol que ela tirou da boca.

Eu tinha 14 ou 15 anos e, nos intervalos das aulas no liceu, andava há uns dias a catrapiscar aquela miúda gira. Tinha pedido a um amigo para nos apresentar e, por alguma razão que eu desconhecia, ela achava-me piada. Eu tinha lábia e resposta pronta, era interventivo nas aulas e com a mania de que era bom de conversa. Mas não era popular. Não pertencia à associação de estudantes e não me dava com a malta cool. A Patrícia não. Era gira todos os dias, dava-se com os rapazes para quem as raparigas olhavam e tinha uma data de pretendentes. Mas, vá-se lá saber porquê, engraçou comigo. Suponho que porque eu a fazia rir. E quando eu lhe dizia, meio a brincar, mas muito a sério cá dentro, que se pudesse gostava de lhe dar um beijo, ela não dava para trás. No fundo, eu sabia que isso nunca ia acontecer. Eu falava muito mas fazia pouco. Era tímido e meio acabrunhado, sem jeito e com pouco jogo de cintura para dar primeiros passos. Mas com a Patrícia perdia os filtros. Pelo menos a falar, com ela eu era o maior.

Um dia, a Patrícia convidou-me para ir ao cinema. Fomos ver A Minha Madrasta é Um Extraterrestre com dois amigos. Claro que eu passei o tempo todo enterrado na cadeira, sem me mexer. No cinema não podia ser falinhas-mansas. No cinema, ou via o filme ou fazia alguma coisa. E eu não era garoto de saber tomar a iniciativa para fazer coisas. Mas ela era…

A dada altura, irritada com o passar do tempo, frustrada, com os minutos para o final a ficarem cada vez mais curtos, enervada por o fala-barato ser só garganta e não se mexer da cadeira, nem sequer para esticar os dedos para lhe tocar numa mão ao de leve (isto é o que eu imagino que ela sentisse na altura, sei lá eu ao certo), a boa da Patrícia decidiu tomar a iniciativa que me faltava. Enquanto eu continuava de olhos grudados no grande ecrã, a olhar para a Kim Basinger e para o Dan Aykroyd, a rapariga de pele morena e longos cabelos encaracolados, gira de morrer e com fãs mais populares do que eu, esticou os dedos à boca, tirou a pastilha, debruçou-se para mim e atirou à queima-roupa: “Tira os óculos.” “O quê?”, perguntei assustado. “Tira os óculos”, repetiu. Eu obedeci. Os segundos seguintes estão entre os mais felizes da minha adolescência e a descarga hormonal que se seguiu devia ter sido sentida em toda a plateia do cinema Fonte Nova. A Patrícia, a giraça da Patrícia, encostou os lábios aos meus e espetou-me um beijo épico de línguas enroladas e saliva. A Patrícia sabia a mentol. A Patrícia cheirava bem.

A Patrícia tinha pele suave, que eu senti quando lhe pus a mão direita na parte de trás do pescoço para a puxar mais para mim – aí perdi a vergonha. A Patrícia, uma das miúdas mais giras do liceu, estava ali, com a língua enrolada na minha e ninguém me podia tirar aquilo.

O filme acabou pouco tempo depois, os nossos amigos que tinham vindo connosco riram-se quando as luzes se acenderam e nós saímos do velho centro comercial em Benfica de mãos dadas. Nos dias seguintes a coisa esmoreceu, não sei se por culpa minha ou dela ou apenas porque tinha de ser. Eu nunca mais beijei a Patrícia daquela maneira.

E, pior que isso, a Patrícia nunca mais me mandou tirar os óculos. Mas aquele beijo já ninguém me tirava.