Canção do desencanto de uma mulher: Carlos Tê nas bodas de bronze

Lembro-me muitas vezes daquela canção do Rui Veloso. E lá vou cantarolando para dentro. Quando saio do metro a caminho de casa, quando ponho a chave à porta do prédio, quando subo as escadas, enquanto faço o jantar, dou um jeito na cozinha ou ligo o computador para adiantar trabalho, a cantiga tornou-se uma espécie de mantra. Chama-se Saiu para a Rua [Ar de Rock, 1980]. Às vezes tranquiliza-me, às vezes embala-me enquanto sonho acordada, às vezes serve-me de aconchego antes de me deitar. Sozinha. Às vezes, tantas vezes, em tantas noites, é só a banda sonora dos dias.

Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro

Já me habituei a isto. Já deixei de me queixar. Sempre foi assim. O meu marido nem é mau homem, não tem mau fundo. É apenas desligado. Ausente. Distante. De vez em quando lá tem um carinho ou uma palavra boa para mim, de vez em quando procura-me de noite, de vez em quando tem um gesto para tentar que eu esqueça todos os gestos que não teve e todas as coisas que não disse e todas as coisas que não fez. Neste mês. No ano passado. E no outro antes.

Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele trabalha, mete dinheiro em casa, dobra os turnos para esticar os euros, lava o carro ao sábado e faz as compras ao domingo. Vamos de férias uma vez por ano. Temos dinheiro para ajudar os filhos e para dar presentes aos netos no Natal e nos aniversários. De que é que eu me queixo? É o que ele diz sempre quando me apanha a chorar.

Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Quero mais. Quero diferente. Quero um teatro, um cinema. Um jantar fora de casa. Um carinho. Quero falar sobre os livros que li e os que tenho por ler. Quero convencê-lo a ler. Quero convencê-lo a viajar. Quero que me faça uma surpresa e me compre uma viagem. Podemos só ir visitar a minha cunhada a Paris, até vamos de carro. Mas quero alguma coisa. Qualquer coisa.

Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Às vezes canto para fora também. Já nem me lembro se ele está perto ou se nem sequer está, se ouve ou não ouve, se aquilo lhe diz alguma coisa ou nem por isso. Sim, as bodas de prata foram comemoradas em solidão. E as outras antes e depois não foram muito diferentes. As de zinco aos dez anos, as de cristal aos 15, as de porcelana aos vinte. Quem é que se lembra destas piroseiras? Bodas de pérola aos trinta anos de casamento, de rubi nos quarenta. Até ao ouro, este ano. Como é que cinquenta anos passaram tão depressa? Como é que eu aguentei cinquenta anos assim? Primeiro foram os filhos. Mas os filhos já saíram de casa. Depois eu fiquei doente e precisei dele. Depois ele ficou doente e precisou de mim. E agora, o que é? Porque continuo eu aqui, então?

Pôs um pouco de batom
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Se calhar ele nem percebe que a canção é sobre ele. Que aquela história é a nossa. Até parece que o Carlos Tê entrou cá em casa para se inspirar antes de escrever a letra. Dia após dia, noite após noite, um ano atrás do outro. Se calhar ele sentava-se à mesa connosco sem darmos conta. Ou fazia-me companhia para não estar sozinha. A canção tem quarenta anos, ele escreveu-a quando ainda éramos quatro aqui. Mas depois ficámos três, depois só os dois e agora, tantas noites, enquanto como sozinha porque o meu marido vai para o sofá com o tabuleiro em frente à televisão ou porque chega tarde do trabalho, a canção de 1980 ainda me faz companhia. O Carlos Tê ainda me faz companhia.

Saiu para a rua insegura
Vagueou sem direção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura

Se nada mudar, é este ano. Este ano é que vai ser. Este ano fazemos 51 anos de casados. São as bodas de bronze. Se ele não mudar este ano, sou eu que mudo. Mesmo. Ou se calhar espero mais um. Para o ano são as de argila. Pode ser que ele mude ao fim de 52 anos…