Sem noção, sem educação e sem empatia

É noite, está escuro e frio e à porta da capela mortuária da igreja está um grupo de gente com olhares consternados e ombros caídos. De vez em quando viram a cabeça na direção de algum carro que chega. O filho do defunto. A filha. A mulher. A mãe. Há abraços, lágrimas, gente que se junta porque deve estar ali – o conforto do aconchego entrelaçado no estômago, embrulhado com os remorsos pelo tempo que passou desde a última vez que se viram todos. Cheira a flores, há coroas e palmas, fitas com sentidas condolências e saudade eterna, uma fotografia antiga numa moldura grande a lembrar como ele era.

Já passou por isto? Já sentiu isto? Já apoiou ou foi apoiado em momentos destes? Ninguém chega a adulto sem ser chamado várias vezes a abraçar ou ser abraçado no luto. Agora imagine o que seria se, nestes momentos, surgisse alguém do outro lado da rua a ofender o morto. Com todos os nomes do vernáculo e a raiva concentrada em palavras que ferem e ferem mais quando são disparadas num momento destes, quando estamos sem guarda. Do morto estamos conversados: do caixão não se levanta para se defender. Na família pode haver gente com vontade de espetar um sopapo em quem ofende, mas será aquele o momento certo? E terão estofo emocional para o golpe?

A imagem não é verdadeira. Isto não aconteceu. Ou pelo menos eu não vi. Mas imaginei. Fiz este filme na minha cabeça à medida que ia lendo, pasmado, cada vez mais agoniado, os comentários nas redes sociais às várias notícias que davam conta da morte de Joaquim Bastinhas, no final de dezembro.

Toda a gente pode dizer e escrever o que quiser. Mas devem? Entra na consciência de cada um, e essa, já se sabe, tal como o bom senso, não foi particularmente bem distribuída à nascença.

Eu, que não sou de abrandar para ver acidentes na autoestrada e me enervo com quem o faz, não consegui parar de ler. Durante os três dias que se seguiram ao anúncio da morte e funeral do toureiro, fiz várias vezes esse exercício masoquista e escatológico de vaguear pelo esgoto a céu aberto de palavreado sujo capaz de envergonhar o mais ordinário dos trolhas. Por princípio e por respeito à família, não reproduzo o que li em dezenas de comentários (eram centenas, talvez milhares, em tantos órgãos de comunicação social). O que levou aquela gente a regozijar-se tanto com a morte de outro ser humano? Que falta de noção pode haver em tantas cabeças para o chorrilho de poluição verbal em tantos carateres desperdiçados em sentimentos daqueles? Um homem morreu numa cama de hospital no último dia do ano e uma longa turbe desata em festa?

Ainda que se possa ficar chocado com o sofrimento de animais e se opte por lutar com as armas ao dispor para acabar com um espetáculo que perpetua a dor de outros seres vivos em nome de uma tradição, isso não justifica – não devia justificar – o gáudio pela morte de uma pessoa. Falta ali um filtro essencial de decência que devia impedir que alguém escrevesse o que escreveu. Que tanta gente escrevesse o que escreveu.

Se podem escrever aquilo? Claro que podem. É uma conquistas da história contemporânea do país: toda a gente pode dizer e escrever o que quiser. Isso é liberdade de expressão e está consagrada na lei. A mesma que pode defender os ofendidos com palavras que lhes sejam dirigidas. Poder, podem. Mas devem? Entra na consciência de cada um, e essa, já se sabe, tal como o bom senso, não foi particularmente bem distribuída à nascença.

Não é preciso gostar de touradas – eu não gosto, de todo – para ficar consternado com tudo o que se escreveu durante aqueles dias sobre a morte de uma pessoa. Sabemos que touradas e toureiros são arena fértil para ódios ferozes porque nos afrontam moralmente. E sabemos que as redes sociais são o meio eficaz para gritar e vociferar o descontentamento. O desagrado ampliado. Mas… mas do outro lado há gente que gostava dele e que se ressente. Há uma família em sofrimento. Há um espaço de luto que é preciso respeitar para não se ser bully. Ou troll. Ou apenas deselegante e mal-educado. E sem empatia. Essa extraordinária capacidade de nos colocarmos na pele do outro.