Como se ensina a um filho que não adianta poder votar se não se vota

Dizer bom dia. Obrigado. Com licença. Responder de forma educada. Agradecer pelo que se tem de bom. Ajudar quem precisa. Defender quem está mais fraco. Denunciar o que não está bem. Contribuir para um bem comum. Poupar dinheiro para o que se pretende comprar. Trabalhar para receber o justo valor pelo trabalho. Partilhar com quem tem menos. Votar.

Eu não sei bem em que momento é que termina a educação cívica de uma criança. Em que altura é que podemos achar que uma pessoa por quem somos responsáveis está pronta para viver em sociedade, com respeito pelos que a rodeiam e pelo na venta para dizer “não” quando se justifica. Presumo que enquanto estiverem debaixo da nossa asa e formos responsáveis pelo teto, pela alimentação e pela proteção, podemos sempre dar bitaites sobre o comportamento ético e cívico dos nossos.

Para já não me preocupo muito com isso. Com 5 e 7 anos, as minhas filhas têm muito tempo pela frente para receber da família, da escola, dos treinadores e de toda a aldeia que é necessária para educar uma criança, os ensinamentos úteis para serem adultas responsáveis. Para depois poderem errar e experimentar por elas próprias.

Aos poucos, pelo que observam e pelo exemplo dos adultos de referência, elas vão percebendo as vantagens da democracia – nem conhecem outra realidade, aliás. E a grande, enorme, gigante importância de ter uma opinião. Uma convicção. Uma vontade de ajudar a mudar o mundo. Um conjunto de princípios que um dia poderá até encaixar em ideologia.

Por enquanto, as votações de mão no ar para decidir se comemos gelado de chocolate ou morango e a ideia várias vezes falada lá em casa de que todas as crianças devem ter direito a uma casa, a saúde, a educação e a proteção dos pais e do estado são bons caminhos para falar de cidadania e responsabilidade.

Por estes dias, andamos a falar de eleições. Da campanha. Do que significam as palavras que ouvem aos candidatos na televisão, qual o alcance das frases nos cartazes pelas ruas. Ora, como isso é difícil de explicar a crianças de 5 e 7 anos, é preciso adaptar o discurso a ideias bem simples e práticas, sem elaborar demais. Ainda não entrámos – porque elas não perguntam – em grandes linhas programáticas. Ainda não tive de explicar o que é a reforma do sistema judicial (acho que não conseguiria), o que significa a sustentabilidade da segurança social (essa quimera) e porque estamos sobrecarregados com uma grande carga fiscal (disso percebo bem). Mas, aos poucos, elas vão entendendo que um dia vão escolher. Um dia serão elas que irão dizer quem querem. E, tal como nos momentos em que escolhem se querem ver o Frozen ou o Entrelaçados, elas sabem que um dia vão ser elas a colocar uma cruz no nome que melhor defende as ideias em que se revêm.

Por enquanto já sabem que é um direito que têm. Espero conseguir convencê-las que é um dever.

 

———-
Editado. Versão original publicada no suplemento
1864, com o Diário de Notícias de 28 de setembro de 2019.