A minha filha não tem maneiras à mesa. Ainda bem para todos

Já passa das 13h00, o almoço está pronto. Dentro de minutos, vamos chamar as miúdas para virem comer. A Carolina irá dirigir-se à cadeira – não de imediato, porque estará a fazer alguma coisa ultraimportante que não pode ser adiada – e a mais nova irá, inevitavelmente, flutuar até ao sofá, depois a cozinha, depois o quarto, talvez a casa de banho, passará pela mesa (é capaz até de se sentar) antes de ir buscar uma boneca que deixou debaixo da cama dos pais.

Entretanto, quando já estivermos sentados, ela vai então dar-nos o prazer da sua companhia. Às vezes chateamo-nos. Às vezes dou dois berros. Às vezes ficamos frustrados porque ela se queixa da comida fria (porque será?).

Suponho que possa ter herdado isso do pai, já que no meu lado da família nunca fomos muito cumpridores dos horários das refeições, para (algum) desespero da minha mulher nas primeiras consoadas e jantares de aniversário que passou com os Farinha. Mas o raio da miúda leva isto mais longe.

Com algum requinte e uma enorme cara de pau, levanta-se a toda a hora, anda a cirandar de um lado para o outro, distrai-se, olha pela janela, vai buscar um brinquedo, faz uma festa na cadela. Se estivermos num restaurante vai ao outro lado do balcão ou espreita o balcão dos gelados.

Com 4 anos e meio, não sei se diga que isto «faz parte dela» e o classifique com um «traço de personalidade» que não vale a pena contrariar ou se tente refrear a coisa, para acabar com este comportamento «de uma vez por todas» e ela não acabe «uma menina mal-educada que não é capaz de estar à mesa».

Nunca consegui cumprir a promessa de lhe colocar um cinto de segurança na cadeira. Para já, deixámos de nos chatear. Tirando o pequeno-almoço, que tem minutos contados para sairmos de casa e implica, por vezes, cereais espalhados pelo carro, as outras refeições começaram a correr melhor. Conversamos mais, rimos mais, sabemos mais uns dos outros.

Enquanto ensaia um passo de bailado no meio da sala, a Madalena come um pedaço de bife e fala um pouco do dia. E nós encolhemos os ombros antes de a irmos buscar para o lugar dela.

Lembram-me, estes dias, os tempos em que seguimos o conselho da pediatra e deixámos de insistir com a mais velha para comer a sopa. A Carolina tinha um ano e meio, começou a comer mais salada e brócolos e os nossos almoços e jantares deixaram de ser períodos de ansiedade e de disputa, de discussão e irritação. Desta vez não perguntámos à pediatra o que achava e eu não procurei ajuda na internet. Limitámo-nos a relaxar com isto. De pouco servem a etiqueta e as boas maneiras se não forem acompanhadas de flexibilidade e bom senso para tornar a vida de todos mais fácil.

A sã convivência em sociedade começa na sã convivência em casa. A sala primeiro, depois o salão. Com menos regras – doseado com conta, peso e medida – conseguimos mais paz e eu até passei a ser mais cuidadoso: agora, para poder exigir, sei que tenho de dar o exemplo e contrariar a tradição familiar de atrasos à mesa.

São quase 14h00 e a Madalena começou a almoçar. A irmã já vai para a fruta. Mas ninguém se chateou cá em casa durante este almoço.