Em Dia do Pai, o que eu aprendi com as minhas filhas

Aprendi que não adianta ficar zangado com ninguém durante muito tempo. E que não vale a pena guardar rancores por coisas que não são, na verdade, tão sérias e graves assim. O menino que num dia tirou de forma brusca um brinquedo das mãos de alguma delas é o mesmo que no dia seguinte lhes deu uma bolacha ou emprestou um livro. A menina que num dia não quis brincar porque queria ser ela a mandar é a mesma que no dia seguinte veio pedir para se juntar ao restante grupo e ir para o fim da fila.

Aprendi que essas dinâmicas, esse ecossistema de feitios, temperamentos e humores de crianças de 4 e 5 anos em que as minhas filhas se movimentam todos os dias as ajuda a perceber a natureza humana. E que poucas coisas são tão graves para nos fazer nunca mais ter vontade de brincar com alguém.

Aprendi que, quando chego a casa, não adianta ir com muita sede ao pote e bombardeá-las com dezenas de perguntas. Eu quero saber se elas estão bem e se o dia foi bom e, ao fim de uns minutos, depois de pousar a mochila ou a pasta, despir o casaco, lavar as mãos e descalçar-me, quero brincar com elas. Elas querem que eu não faça barulho porque estão a ver desenhos animados e depois sim, se estiverem para aí viradas, lá começam a responder, se as perguntas vierem de pantufas no meio das brincadeiras.

Aprendi que elas têm o seu ritmo e o seu tempo e que eu tenho de conseguir respeitá-los, se quero entrar neles.

Aprendi que não adianta fazer perguntas abertas e genéricas ao fim do dia sobre coisas que aconteceram há muitas horas e que obrigam a pensar muito e permitem respostas tão diferentes como monossílabos, «hum-hums», «sins» evasivos, «nãos» a despachar e muitos «não me lembro».

Por isso tive de deixar de perguntar «como foi o teu dia», «o que comeste ao almoço» ou «brincaste muito» e passei a perguntar se o almoço tinha incluído brócolos ou morangos, se o arroz era verde ou azul, se o peixe estava vivo ou se o frango ainda fazia «cocorocó». Comecei a perguntar qual tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido durante o dia ou, se houvesse uma coisa – e uma apenas – que pudessem mudar no que tinha acontecido desde que se levantaram, o que seria.

Aprendi que não posso dizer tudo o que me passa pela cabeça no momento em que me passa pela cabeça. Não só porque as minhas filhas de 4 e 5 anos são esponjas e absorvem e replicam muito do que ouvem e veem em casa, mas também porque nem sempre devo
ser o melhor exemplo para elas. E eu quero ser o melhor exemplo para elas.

Por vezes, durante o dia, no trabalho ou no carro, em reuniões com colegas ou à mesa do restaurante, penso como seria se as minhas filhas estivessem ali. Se eu falaria da mesma forma. Se eu dedicaria tanta atenção a minudências da mesma forma. Aprendi com as minhas filhas que o esforço de sermos melhores seres humanos e referências para crianças pode bem ser replicado em momentos em que não temos nenhuma por perto.

Aprendi com as minhas filhas, à medida que foram crescendo, que elas são tão minhas como eu sou delas. E que a sensação de proteção, mimo e segurança facilmente se adapta e transforma em sensação de pertença.

E aprendi que pertencer a alguém não é deter ou prender alguém. As minhas filhas serão sempre minhas filhas. Eu serei sempre o pai delas. E isso não significa que seremos sempre amigos ou que elas sempre gostem de mim. Mas a ideia de ter de me esforçar para isso e ter de conquistar o afeto em troca de afeto, a atenção e mimo em troca de proteção, segurança e conforto, é uma das mais extraordinárias e seguras ligações entre seres humanos.

Isso eu aprendi com as minhas filhas.