Filho és, pai serás – e dos teus cuidarás

O comboio saiu pontualmente às 10h09 anunciadas. Na carruagem que escolhi, duas pessoas dormitam, uma desliza os dedos pelo ecrã do telemóvel, outras duas conversam baixinho. É domingo e eu tinha na ideia que, até ao Entroncamento, iria passar os olhos nas gordas do DN, embora já soubesse que a paisagem puxaria os olhos para a janela.

Mas são quase 11h00, estou a chegar ao Fratel e é outra a imagem que não me sai da cabeça. A dos meus pais, na gare de Castelo Branco, a dizer-me adeus. O Zé acordou cedo para me levar, a Maria Dias acordou cedo para ele não regressar sozinho à aldeia. A viagem é curta, são só trinta quilómetros, mas é assim que eles fazem. São 87 anos, já lhes custa. A ele e a ela. Por isso é que vim. Por isso é que ontem fiz a viagem com eles, para vir eu a conduzir e poupar ao meu pai os quilómetros de estrada. E eles ficam lá. Na Beira a que regressam todos os verões desde que, há meio século, vieram fazer a vida para Lisboa.

Quando eu e as minhas irmãs éramos crianças, eram eles que organizavam tudo. Para todos. A minha mãe preparava sacos e malas e cestos e pequenos embrulhos e caixas e encomendas e colocava-os no hall de entrada. Nós levávamos as coisas para a escada, junto à porta da rua, a partir de onde o meu pai encaixava tudo no porta-bagagens, num Tetris perfeito que não deixava nenhum centímetro cúbico por preencher na mala do carro. E nem os nossos colos eram poupados aos objetos frágeis que também faziam a viagem.

Depois crescemos, fizemo-nos à vida, saímos de casa. E eles continuaram a ir para a terra, a minha mãe continuou a organizar malas e sacos e caixas no hall (alguns vão e vêm e eu nunca vou entender isso), o meu pai continuou a levá-los para baixo e a encher o porta-bagagens e os bancos de trás, agora livres dos filhos – que continuaram a ir à Beira, sim, mas nos seus carros, com as suas famílias, e por menos dias.

Agora voltámos a ajudar. De ano para ano ajudamos mais. Ajudamos a fazer sacos, a arrumá-los à porta, a levar tudo para o carro. Neste ano, pela primeira vez, pus eu as coisas no porta-bagagens, tentando não incutir demasiada ordem minha num ritual que sempre foi do meu pai – ainda que o tivesse a bichanar por cima do meu ombro para colocar este par de sapatos por cima daquela caixa. Pela primeira vez também, levei eu o carro de propósito para a viagem. As minhas irmãs já o tinham feito, o meu sobrinho também, agora fui eu.

É meio-dia, estou a passar por Almourol, desço para Lisboa pela linha da Beira Baixa, um dia depois de subir pela A1 e pela A23. Levo um saco com uma curgete e uns bolos de azeite que a minha mãe me deu enquanto me passava uma nota de vinte euros «para o mealheiro das meninas». Vim de carro, regresso de comboio. Para trás ficam os meus pais e um pedaço de mim fica lá também. «Ficam bem? Têm tudo o que precisam? Se houver alguma coisa telefonem logo.» Eles riem-se, percebem-nos a preocupação, mas encolhem os ombros e continuam. Vão continuar. A fazer o que sempre fizeram e a só pedir ajuda quando não conseguem mesmo. E nós continuamos a dar graças por eles continuarem tão independentes – e a agradecer de cada vez que regressamos à Beira. E por todas as viagens que ainda faremos para os levar.