Gente (aparentemente) feliz com lágrimas*

É um mistério. Um enigma. Pelo menos para os amigos dela. Afinal, o que raio faz uma mulher daquelas, bonita, inteligente, senhora do seu nariz (a roçar o mau feitio, o que só lhe acrescenta um toque de personalidade ainda mais encantador), com um anormal destes? Insegurança? Medo de ficar sozinha? Manipulação? Quer dizer, o tipo tem bom aspeto, é inteligente, tem um sentido de humor acutilante e um olho para o negócio como poucos. Mas, para todos os efeitos, é uma besta. Bruto que nem uma porta, por vezes mal-educado ou inconveniente, é, em tudo o que se pode julgar, um anormal à antiga. Macho latino como já só encontramos em caricatura, com ideias sobre as mulheres que parecem tiradas de um manual de costumes do século XIX, tem o condão de provocar nas outras pessoas sentimentos unânimes: todos os amigos e familiares da mulher o detestam.

Não é, ao que se saiba, um caso de violência conjugal – desses que são crimes públicos, em que qualquer pessoa pode (e deve!) apresentar queixa, poupando à vítima o passo oficial. Nunca ninguém soube de um excesso, uma cabeça perdida, um momento irrefletido que tivesse resultado em mazelas físicas naquela mulher. Mas aquilo roça a violência psicológica. Na fronteira com o bullying emocional, oscilando entre comentários jocosos e momentos de ternura ocasionais, que a fazem acreditar que continua a valer a pena, não obstante tudo o resto.

Durante muito tempo, toda a gente pensou que só podia ser amor, caramba, o que a fazia ficar por lá. Isto das razões do coração é uma chatice de compreender, e deve ser ainda mais quando se continua apaixonada por um fulano egocêntrico e desagradável para a pessoa com quem se partilha a cama, a mesa, a casa e a vida. Ele lá tem as suas virtudes e até consegue manter uma conversa minimamente agradável durante alguns minutos. Mas, em menos de nada, a coisa descamba e lá vem uma boca foleira ou um comentário depreciativo sobre o género feminino. E se a mulher estiver presente, é certo e sabido que será ela o alvo da boçalidade do tipo. Mesmo que ela responda à letra, mesmo que o ambiente fique gelado com um momento de tensão entre aqueles dois (com a assistência a torcer para que ela lhe aplique uma direita bem encaixada no queixo), no final ela vai ficar calada e entregar os pontos.

Bem vistas as coisas, também pode ser dependência. Ou medo. Ou insegurança. Ou outra coisa qualquer que ninguém sabe bem explicar – nem a própria. Seja o que for, eles ainda estão juntos. E continuam a ser motivo de conversa entre amigos, família e conhecidos, sempre que acaba um jantar, no fim de um casamento ou no regresso a casa de um batizado. “Viste como ele falou com ela? Que gajo tão estúpido. Não sei como é que ela aguenta.”

Mas ela sabe. Ela lá sabe como aguenta. Ainda que os amigos falem com ela e a alertem para os danos daquela relação, ainda que toda a gente diga que “ele não é boa rês”, ela continua por lá. Por muito que custe a quem vê aquilo de fora. Por muito que nos custe a nós, os que conhecemos gente assim. Essas pessoas que parecem viver debaixo do título (adaptado) do romance brilhante de João de Melo*.

Editado. Versão original publicada na Notícias Magazine de 16 de setembro de 2012.