Entre o amor e o horror, nos limites da condição humana

Já passou o 14 de fevereiro dos sorrisos e dos presentes, das surpresas e dos embrulhos, dos bilhetes e dos jantares. Já se esvaziou o balão de oxigénio que o comércio recebe nesta altura, com vendas de roupa, perfumes, telemóveis, bijuteria, lingerie, bonecos de peluche e quinquilharia decorativa com mensagens de amor. Já ficou para trás a loucura da tanta publicidade a tudo isto. Já se pode esquecer novamente essa ideia da felicidade com data marcada.

Nada tenho contra o Dia de São Valentim e o marketing namoradeiro que se lhe associou. Embirro um pouco com essa coisa de sermos obrigados a estar felizes no dia X ou no dia Y só porque o calendário assim o decide, mas a obrigação está na nossa cabeça, não nas datas. E não serão poucos os casos de namorados que, desavindos com a vida e um com o outro, terão resolvido inteligentemente adiar a celebração para poderem usufruir dela num dia em que já lhes tenha passado o amuo.

Consigo facilmente associar o conceito de felicidade ao amor e ao tempo que queremos passar com alguém, com mais ou menos paixão, mais ou menos dopamina e serotonina no cérebro, mais ou menos anos de vida em comum ou noites de sexo tórrido. Consigo facilmente associar a sensação de felicidade a momentos de partilha, de generosidade, de empatia, de ajuda ao próximo. Consigo facilmente associar a ideia de felicidade a histórias de gente que se supera, dá a volta ou vive mais com menos. E, claro, consigo compreender que, para muita gente, a felicidade só existe se tiverem alguém ao lado.

Eu consigo andar uns tempos bêbado de felicidade ou embevecido com a felicidade dos outros. Mas depois lá caio em mim e a realidade lembra-me que a felicidade pode ser outra coisa: a felicidade pode ser, apenas (e este apenas é tanto) podermos ver os filhos a crescer, sem medo que um louco ou louca um dia se sirva deles para enfrentar os seus próprios demónios. E magoar o mundo à volta.

Já passou mais de uma semana desde que soubemos da história infeliz do homicida de Corroios. Naquele 5 de fevereiro, à medida que as informações iam chegando, fomos tomando contacto com o horror de saber que uma criança de 2 anos tinha sido encontrada na mala de um carro, morta pelo próprio pai. Algumas horas depois, no ecrã da televisão, surgia uma fotografia da Lara, a bebé asfixiada. Pouco tempo depois chegava o nome de Sandra Cabrita, a mulher que, no mesmo dia, ficou sem a mãe e sem a filha. E, por todo o lado, o nome de Pedro Henriques, o desempregado que acabou com a sua vida à porta de casa dos pais, deixando um bilhete onde escreveu “A culpa é da família”.

Ainda se lembram? Ficámos chocados mas, como em tudo, esquecemos rapidamente. Voltámos para a nossa vida e deixámos lá longe, esquecida, a dúvida e a angústia sobre o que se passou naquele dia. Mas não para eles. Não para quem viveu aquilo. Não para Sandra. Ela não esquece. Ela não vai esquecer.

Nunca se chegará a saber – mesmo depois de uma eventual autópsia psicológica que permitisse concluir se aquele homem tinha alterações fisiológicas nalguma zona do cérebro que lhe afetassem as decisões – o que passa pela cabeça de alguém quando asfixia uma filha. Sandra ficará sem respostas. Os pais de Pedro ficarão sem respostas. Nós, os que menos interessamos aqui, ficaremos sem respostas.

A única coisa que podemos fazer, à medida que o choque e o horror dão lugar à dúvida sobre os limites do desespero, talvez seja mesmo tentar olhar para o outro lado da condição humana. Entender que há pessoas assim – algumas estão entre nós – mas que haverá mais gente dos outros. Dos que fazem felicidade. Dos que trazem sorrisos para as nossas vidas. Para que possamos voltar a ter esperança e alento. E, quem sabe, alguma felicidade.