Os melhores pais do mundo? Somos nós

Da primeira vez que a minha filha Carolina, então com 3 anos, me ajudou a selecionar brinquedos que ela e a irmã já não usavam, escolheu duas bonecas. A Madalena, um ano mais nova, escolheu uma. A ideia era levar roupa e outros bens a uma instituição que tem uma creche e acolhe mães adolescentes e respetivos filhos. Três bonecas a menos numa gaveta cheia não faria diferença às minhas filhas – mas esses três a mais podiam fazer a diferença em quem não tinha nenhuma.

Depois de terem ido comigo ver com os próprios olhos a nova casa dos brinquedos que generosamente tinham oferecido, a Carolina disse-me que queria escolher mais bonecas. Porquê, perguntei-lhe. «Porque eu tenho muitos e aqueles meninos e meninas precisam mais.»

O episódio ocorreu num verão, numa semana em que estive com as filhas em casa. Já tinha sido assim no ano anterior e será assim também neste. Como o jardim-de-infância delas fechava em agosto e não temos com quem as deixar, eu e a minha mulher tiramos alguns dias de férias alternados nesse mês. Uma semana eu, outra semana ela, quinze dias em família. Durante esses abençoados e cansativos dias, sou eu que as mantenho ocupadas, alimentadas, animadas, limpas, separadas em caso de discussão, juntas para sairmos de casa com a mochila pronta e sem mais delongas – operação que pode demorar até duas horas, contando com os alertas de «cocó!» quando já estamos na escada ou uma troca de roupa à última hora.

Penso nisso várias vezes durante o ano, mas naquela semana de agosto a ideia surge com mais frequência: tenho uma sorte danada em pertencer a esta geração de pais. Quase diria que este é o melhor momento da história da humanidade para ser pai se isso não soasse demasiado a verdade de La Palice – os nossos pais também terão tido melhores condições do que os pais deles. E eles, os nossos, não faziam metade do que nós fazemos hoje com os filhos. Azar o deles, sorte a nossa.

Os tempos eram diferentes, as necessidades e dificuldades também, mas as mentalidades, essas sim, mudaram bastante. Com o muito que avançámos em tão pouco tempo, esta é, provavelmente, a maior evolução cultural familiar das últimas décadas. Ou devíamos chamar-lhe revolução? Desde que a vaga de emigração dos anos 1950 e 60 abrandou, desde que o 25 de Abril de 1974 provocou alterações legislativas que potenciaram a natural emancipação feminina e desde que as mulheres entraram com força no mercado de trabalho – mais tarde viria o planeamento familiar e o estrondoso aumento na frequência académica –, eles e elas começaram, aos poucos, a reposicionar o seu papel no trabalho, em casa e na família. A mulher conquistou a custo o seu lugar no mercado de trabalho (e tanto está ainda por conquistar) e o homem passou a ocupar em casa uma posição que é sua por direito e obrigação mas que muitas vezes descurou, em grande parte por ausência de exemplo e referência.

Um homem equilibrado, informado e interessado sabe hoje que pelos seis meses de idade o filho deverá começar a comer sopa passada e que é saudável e gratificante ficarmos cuspidos e com uma máscara facial de legumes cozidos depois das primeiras vezes que lhes apresentamos a colher. Sabe que se o almoço na escola é carne, o jantar em casa deve ser peixe. Sabe que a cadeirinha no carro deve ser sempre adaptada ao tamanho e peso da criança. Sabe que os telemóveis e tablets podem dar uma ajuda para manter a canalhada sossegada durante uns minutos mas que não é boa ideia passarem demasiado tempo agarrados àquilo. Sabe que os dentes deles devem ser escovados três vezes por dia e sabe que a obrigação de saber tudo isto é tanto dele como da mãe das crias.

Hoje, um pai equilibrado, informado e interessado aproveita o máximo que pode da licença parental que a lei permite quando lhe nasce um filho – assim a sua entidade patronal não lhe faça a vida negra. Muito se evoluiu, em legislação e mentalidades, desde que, em 2005, 413 homens partilharam a licença parental com as mães dos seus filhos. Destes 0,5% do total de licenças das mulheres desse ano passamos a 34,1% (26 329 indivíduos) em 2016, o último ano de que há registo junto da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).

A legislação que obriga os homens a gozar 15 dias (cinco dos quais imediatamente a seguir ao parto) só reforça a necessidade de aproximar o homem da mulher nesses tempos decisivos em que chega a casa uma criatura nova que precisa de atenção e em que a mãe que precisará de doses equilibradas de mimo, chocolates, horas de sono, muito apoio na amamentação e distância de segurança para gerir o cansaço e o cocktail de hormonas. Tudo isto sem a presença de um enfermeiro disponível 24 horas quando se carregava num botão, como acontecia no hospital.

Haverá muitos pais que acham ridículo isto ser sequer referido. É mais do que assumido que devem e querem ocupar o seu papel na educação dos filhos e nas tarefas em casa. A tendência, espera-se, evoluirá nesse sentido. Até ao dia em que deixar de ser uma tendência. Mas há muitos que continuam a precisar de ser lembrados. E é para esses, também, que a lei estipula dias obrigatórios de licença em simultâneo com a mãe.

Estamos no bom caminho mas há ainda muito a trilhar. Em vários planos. Em casa, por exemplo, muitos homens continuam a fazer depender a intervenção nas tarefas domésticas e de cuidar dos filhos do auxílio que as companheiras lhes peçam. Eles estão sempre disponíveis, mas só se forem chamados. Entre o pai que faz e o pai que ajuda vai a distância de iniciativa que faz a diferença. Não basta ser preciso fazer alguma coisa – e estar ali à vista para ser feito –, é preciso ser convocado, requisitado para o efeito. Ao estarem disponíveis para «ajudar», muitos homens assumem, implicitamente, que é a mulher a responsável pela gestão, planificação e organização dessas tarefas. Eles podem fazer o jantar, mas são elas que decidem as refeições durante a semana. Talvez seja por isso, por ser culturalmente sobre a mãe que recai essa planificação, que não há no mercado bonecas que digam «papá». Isso, cuidar dos filhos e da casa, é tarefa de mãe. E de pequenina se passa essa informação – errada! – às crianças, uma espécie de informação tatuada no DNA, que é preciso apagar.

Nos tribunais também é preciso mudar o modo de pensar mais comum. Em caso de divórcio, a maioria dos juízes portugueses continua a não recomendar a residência alternada das crianças entre pai e mãe e, quando esta ocorre, é sempre alvo de um rigorosíssimo processo de averiguação das capacidades paternais para educar e cuidar de um filho. Tudo em nome do superior interesse da criança, é verdade, mas com um excesso de zelo e um preconceito para com o pai que já foram alvo de reparos em Homens e Igualdade de Género em Portugal, o Livro Branco que a CITE editou no início deste ano. Com a evolução dos tempos, os bons exemplos que chegam de países como a Bélgica, Holanda ou Suécia (onde a residência alternada é regra), e a chegada à magistratura de juízes mais novos, espera-se que a situação caminhe no sentido de sentenças ou acordos de regulação do poder parental mais amigas da paridade e do equilíbrio, com base na ideia de que a criança é mais saudável se tiver contacto regular com os dois progenitores.

Saúde, pão, casa, educação. O que resta, então? Se calhar o mais importante: desenvolvimento emocional e fazer deles bons seres humanos.

E nas empresas, enquanto a desigualdade salarial entre homens e mulheres for tão gritante, continuará a ser sobre eles que recairá a tradicional ideia de sustento da família e serão elas que terão de continuar a sair mais cedo para ir buscar os miúdos à escola ou a faltar quando chegam as otites, bronquiolites ou gastrenterites. Pior que isso: a precariedade laboral obriga, hoje em dia, muitas mães e muitos pais a abdicar da totalidade da licença parental, por receio de represálias. Ou porque pura e simplesmente têm de trabalhar em mais do que um local para garantir algum conforto financeiro. Mas as coisas estão a mudar. Têm de mudar.

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