Assédio sexual: #eutambém*

Eu também acho que é importante falar do movimento #MeToo e que todas as discussões devem servir para alertar para o flagelo do assédio ou abuso sexual e para denunciar situações, mais ou menos graves – a justiça que tire depois as suas conclusões.

Mas também sei que o bom senso é a qualidade menos bem distribuída à nascença e, nesta necessidade de denúncia e de marcar um discurso desde que o movimento #MeToo ganhou fôlego, muita gente estará a colocar no mesmo saco as piadinhas javardolas que sempre fizeram e os galanteios de ocasião que por vezes saem sem filtro.

«Por cada Weinstein ou Cosby denunciado, há dez Silvas, Peixotos, Meireles, Antunes, Ferreiras e Moitas que continuam a esticar-se para cima das funcionárias das suas pequenas empresas no vale do Ave ou numa garagem de telheiras.»

Eu também defendo que predadores como Harvey Weinstein ou Bill Cosby devem ser chamados à justiça (foram poucos, muito poucos, os condenados até agora) e que é preciso acabar com a impunidade que uma situação de desequilíbrio de poder confere a um homem para fazer o que quer a uma mulher sobre quem exerce algum tipo de influência (também ocorre o inverso, mas há menos casos conhecidos).

Mas também me parece que, por cada Weinstein ou Cosby denunciado, há dez Silvas, Peixotos, Meireles, Antunes, Ferreiras e Moitas que continuam a esticar-se para cima das funcionárias das suas pequenas empresas no vale do Ave ou numa garagem de Telheiras. Sempre o fizeram e acham que podem continuar a fazê-lo, porque não vão ter batalhões de jornalistas à porta.

Eu também creio que, independentemente do tempo que tenha passado entre o momento em que um homem se roçou no rabo de uma mulher e o momento em que esta lhe apontou o dedo em público, é preciso falar. E denunciar. Para que ele se sinta exposto.

E também acho que, se alguém só resolve falar passados vinte anos desde aquela noite de copos na faculdade, quando toda a gente bebeu de mais e várias pessoas acabaram nos quartos umas das outras, então é porque só agora é que conseguiu ganhar coragem para isso. Ou só agora é que percebeu que seria ouvida/o.

Mas também quero acreditar na justiça para avaliar se essas queixas são reais ou não. Eu também acho que o dinheiro que uma pessoa acusada tem hoje pode influenciar uma denúncia contra ela sobre alguma coisa que tenha feito há dez anos. E sim, também acho que não deve haver muita gente a acusar homens que não têm onde cair mortos. Mas sobre isso pouco se pode fazer – na dúvida, não façam nada agora para não serem acusados no futuro.

«Cresçam, pá. Vítimas não são os homens com medo de serem acusados de assédio sexual. vítima é uma miúda de 14 anos que tem de ouvir um burgesso na rua dizer-lhe que lhe lambia a cona»

Eu também considero uma estupidez colocar os homens todos no mesmo saco e olhar para todos de igual forma como potenciais predadores sexuais. Mas… ninguém está a fazer isso, pois não? Pode haver um ou outro discurso mais inflamado ou uma ou outra crónica mais desbragada, mas ninguém está mesmo a acusar os homens todos de serem uns ordinários.

Mas também acho que é ainda mais estúpido cavalgar o discurso que diz que os homens são umas vítimas e que agora já não podem dar o primeiro passo e que qualquer coisa que façam vai ser mal interpretada. Cresçam, pá. Vítimas não são os homens com medo de serem injustamente acusados de assédio sexual. Vítima é uma miúda de 14 anos que tem de ouvir um burgesso na rua dizer-lhe que lhe lambia a cona.

Eu também sei que o assédio sexual não ocorre apenas de homens para mulheres e que eles não são sempre os maus e elas não são sempre as vítimas.

Mas também sei que a estatística continua a tombar para o lado delas: apenas dez por cento dos homens vítimas contam à polícia o que estão a passar, contra 26 por cento das mulheres) e essa continua a ser uma triste realidade portuguesa. E europeia. E mundial.

#Me Too.


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