O insondável mistério da cabeça do outro

Levante a cabeça. Olhe à volta. Fixe o olhar em alguém à escolha. Atente nos movimentos das mãos, na posição das pernas, no que lhe sai dos lábios, na forma como segura o jornal ou a pasta, o guardanapo ou a chávena. A menos que a linguagem corporal seja completamente óbvia, consegue imaginar o que estará a passar-lhe pela cabeça? Que pensamentos a pessoa estará a ter neste preciso momento? Com que fantasmas estará a debater-se ou que memórias estarão a dançar-lhe no hipocampo?

Continue a deslizar os olhos. Mais uma pessoa. E outra. E mais outra. O que raio lhes irá lá dentro? O que tanto pensam elas? Se juntássemos as ideias de todos, o que sairia dali? Que sinfonia seria possível compor no meio de uma cacofonia de sons dispersos e pensamentos avulsos?

Leve agora essa ideia para a sua mulher. Para o seu marido. Para o seu pai ou para a sua filha. Para as pessoas que acredita conhecer melhor e cujas vidas são – pensa o leitor – um livro aberto para si. Se estiver com um deles agora, faça o exercício. Se não estiver, melhor ainda. Imagine o que vai na cabeça do outro. Com quem está a falar agora. Que problemas está a resolver ou que soluções está a procurar. Que perguntas estará a formular ou que respostas estará finalmente a encontrar. Pense nisso. E depois pense novamente. Já sente aquela ponta de inquietação? Não foi a primeira vez que pensou nisto, pois não?

De todos os mistérios insondáveis da humanidade, de todas as dúvidas que continuaremos a carregar com o passar dos tempos, de todos os enigmas que não conseguimos desvendar, há um que se manterá inalterado e insolúvel: o conteúdo da cabeça do vizinho do lado. Poderemos até conseguir colonizar Marte ou descobrir vida inteligente noutra galáxia, mas entrar dentro dos pensamentos do outro, por muito bem que o conheçamos, continuará a ser território vedado.

Cada pessoa é um mundo inteiro de dúvidas e transporta um mundo inteiro de incertezas. Os dramas, que alguns até conhecem mas de que outros nem suspeitam, a formar um gigantesco puzzle cujo desenho final possivelmente nunca irá completar-se. Claro que podemos sempre lançar a pergunta e tentar saber, e claro que podemos sempre fingir que acreditamos na resposta, caso esta seja dada, mas nunca ninguém sabe verdadeiramente o que se passa na vida do outro. Que dramas enfrenta em casa, que relações alimenta em privado, que vida gostaria de levar em vez daquela a que está confinado.

Por muita insegurança que isto possa transportar, talvez fosse mais fácil encarar o quotidiano das relações, emocionais ou profissionais, se assumíssemos isto mesmo: não sabemos tudo. Não temos de saber tudo. Não conseguimos sa­ber tudo. Nem vale a pena presumir que sabemos, achar que somos peritos em ler os sinais, decifrar humores, descortinar emoções, adivinhar sentimentos, topar intenções ou antecipar comportamentos. É desta presunção que saem a maioria dos mal-entendidos.

Na verdade, assumir que não sabemos tudo, nem podemos ou temos de saber, coloca-nos na melhor posição possível para melhor perceber e decifrar o outro. Se tivermos a disponibilidade (e a capacidade) para o ouvir. Sem interromper. Para começar.