Ninguém morre de amor. Mas há quem mate por amor

Vai fazer um ano, faltam só alguns dias, que me entreguei inteiramente a ti. A tua paixão parecia-me tão sincera e ardente, que não poderia imaginar sequer que a minha te viesse a aborrecer, a ponto de te obrigar a fazer quinhentas léguas, e a expores-te a naufrágios, para te afastares de mim. Não esperava ser tratada assim por ninguém: devias lembrar-te do meu pudor, da minha confusão, da minha vergonha, mas tu não te lembras de nada que possa levar-te contra vontade a amar-me.

Ninguém morre de amor. A menos, claro, que contraia uma doença sexualmente transmissível com alguém por quem se apaixonou. E nesse caso é possível. Tirando isso, ninguém morre de amor. Nem sequer Mariana Alcoforado morreu de amor. A freira portuguesa que se perdeu de paixão pelo marquês de Chamilly quando este combateu em Portugal durante a Guerra da Restauração, em meados do século XVII, sofreu por amor. Desgastou-se por amor. Chorou por amor. E por amor terá escrito as belíssimas cinco Cartas Portuguesas (em cima, um excerto da quarta) ao oficial francês enquanto vivia em clausura no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, relatando a esperança pelo seu regresso e o desalento por não mais ser correspondida pelo jovem por quem se enamorara. Mas não foi o amor que a matou, aos 83 anos.

Até ao fim do mês de maio, o Museu Nacional de Imprensa, no Porto, tem patente ao público a exposição Amor Impresso: 350 Anos das Cartas de Mariana Alcoforado, a propósito do aniversário da publicação das missivas apaixonadas da freira portuguesa. Com esse pretexto, e até ao mesmo dia, a instituição promove também uma original e pertinente iniciativa: um concurso de slogans sobre o amor.

Original porque é uma forma diferente de falar de um sentimento. E logo este sentimento. Através de uma frase orelhuda que nos fique na cabeça e no coração e que consigamos repetir até à exaustão sem nos cansarmos dela, que utilizemos no contexto certo ou no contexto ao lado, que consigamos memorizar para repetir a quem gostamos ou a quem queiramos dizer o que este concurso promove: que o amor é uma coisa boa e deve ser vivido sem proibições nem barreiras e com respeito pelo próximo.

Sofrer por amor – como a soror Mariana Alcoforado sofreu – é uma coisa. Morrer por amor às mãos de alguém que não o sabe cuidar é outra.

Pertinente porque o objetivo do concurso é nobre. Do mais nobre que pode haver: “As recentes estatísticas sobre os casos de “violência no namoro” constituem uma antecâmara do flagelo da violência doméstica que publicamente tem crescido em Portugal. A promoção de campanhas de diferentes níveis, como através de slogans, pode ser um bom contributo para sensibilizar as camadas mais jovens para o direito (e o dever) ao amor, sem preconceitos nem ameaças.” As frases são retiradas do regulamento e dirigem-se a jovens até aos 25 anos, os únicos que podem concorrer. Porque é precisamente junto deles que é preciso trabalhar e alertar e sensibilizar e convencer. É a eles que temos a obrigação de fazer ver que a violência doméstica é que mata. Mesmo que motivada por um amor doentio e perverso, desequilibrado e desenquadrado. O tipo de amor que pode levar alguém a matar – e que é preciso combater.

Ninguém sabe quantas pessoas vão concorrer e quantos slogans chegarão à fase final. Ninguém sabe quantos brain­storms de jovens estão a ser feitos neste momento à procura da frase ideal. Ninguém sabe se o bordão vencedor será suficientemente forte para nos entrar pela vida adentro. Mas sabe-se que é a pensar nestas coisas e a refletir sobre elas que chamamos a atenção para um flagelo que mata e que é importante mitigar.

Sofrer por amor – como a soror Mariana Alcoforado sofreu – é uma coisa. Morrer por amor às mãos de alguém que não o sabe cuidar é outra. Esperemos que, com um slogan, essa ideia entre mais depressa na cabeça de tanta gente.