É Natal. Chegou o dia mais esperado. Ou o mais odiado

Deve estar alguém na cozinha. Há sempre alguém na cozinha. A levar pratos de comida sujos para cima da bancada cheia, prontos para encher uma máquina de louça. Mais uma. Ou então a ir buscar o pudim que estava no frigorífico, o bolo que ficou esquecido numa caixa ou uma peça de fruta para desenjoar de tantos fritos. Ou a conversar. No dia de hoje e de amanhã – e se calhar já começou ontem –, a cozinha é o epicentro de sentimentos e sabores, de encontros e conversas. As sérias e as outras. No Natal, é na sala que se vai juntar toda a gente, mas é na cozinha que se preparam os pratos e confecionam as emoções todas que depois digerimos durante horas com aquelas pessoas. E nos dias seguintes. Ou nos meses seguintes.

No quarto dos miúdos, ou se joga PlayStation ou se brinca com bonecos ou algum pré‑adolescente está há horas agarrado ao telemóvel. Claro que não precisam de estar ali fechados para estar agarrados ao aparelho. Para serem antissociais, qualquer canto serve. Mas também, bem vistas as coisas, não é preciso ser pré‑adolescente para ignorar o mundo à volta e passar a noite toda da consoada com um smartphone nas mãos. Se calhar, é até mesmo no telemóvel que estão a ler esta crónica…

Na sala, primos que não se veem há um ano falam dos sucessos escolares dos filhos, dos problemas no trabalho, de quem está prestes a divorciar‑se, de um bebé que vem a caminho ou de doenças que não há maneira de arrepiarem caminho, mesmo com os medicamentos novos. Também se fala de quem morreu e ainda cá estava no Natal passado, do que se vai fazer à casa que calhou nas partilhas, do tanto que há de papelada para tratar. A morte dá tanto trabalho, caramba.

E há quem vá adormecer antes da meia‑noite. Ou antes das dez. A casa está quente, o sofá confortável, o canto escolhido está a meia‑luz. «Vou fechar os olhos só um bocadinho mas não quero dormir.» Uns vão acordar se o canal da televisão for mudado, outros vão ressonar tanto que até vão cortar conversas.

É véspera de Natal e, um pouco por todo o país, há carros em trânsito cheios de presentes e azevias e filhós e troncos de chocolate, a caminho de casas onde já há presentes e azevias e filhós e troncos de chocolate mais do que suficientes. Muito mais do que suficientes. Tudo o que não se vai comer por estes dias dava e sobrava para alimentar todas as bocas que não vão passar o Natal em casas quentes rodeadas de família. E todos os anos dizemos que vamos comer menos e cozinhar menos e comprar menos. Mas é sempre a mais. É sempre a somar. No Natal, subtraímos os que já não estão cá ou seguiram caminhos e relações diferentes, somamos os novos que vão entrando na família. E a comida em excesso. E os presentes em excesso. E o plástico em excesso. E o lixo em excesso. Um dia ainda vamos conseguir ser mais frugais e contidos, acreditamos com força, mas até chegar continuamos da mesma maneira. E vamos seguindo.

É o que fazemos, Natal após Natal. Vamos seguindo. Para muita gente, estes são os dias mais difíceis do ano e querem que passem depressa. Para outros, são os dias mais ansiados. Em cada casa, dessas com excesso de comida, com primos que se reencontram, com avós a dormitar no sofá, com pré‑adolescentes agarrados ao telemóvel, com gente sempre na cozinha, vamos seguindo. Esperamos que daquela concentração de emoções ou tensões saia sempre alguma coisa melhor, algum sentimento mais forte, algum ânimo para os tempos que se seguem. De preferência, que nos ajude a aguentar até ao Natal seguinte.

Terça‑feira de manhã acaba‑se este intervalo e a vida continua. Ou quarta, que a tolerância de ponto vai dar mais um dia para remoer tudo o que se comeu e o que se ouviu.