Listas para tudo e Neruda para principiantes

Gosto de listas. Preciso delas para me organizar, para orientar o meu dia-a-dia, para me guiar entre o trabalho e a vida pessoal, seja para criar prioridades para a hora seguinte ou objetivos para a próxima década. Não gosto assim tanto delas como o Rob Gordon (John Cusack) em Alta Fidelidade, o clássico de Nick Hornby que Stephen Frears adaptou ao cinema – o homem até tinha uma lista para canções que gostaria de que cantassem no seu funeral – mas gosto o suficiente para saber que, se tivermos uma boa lista de razões para fazermos isto ou aquilo, temos menos razões para não o fazer.

Se alguém algum dia fizer uma lista de obras lamechas que ensinem jovens a dominar falinhas mansas para conquistar corações alheios, coloquem à cabeça Il Postino (1994), realizado por Michael Radford e pelo também ator (entretanto falecido) Massimo Troisi sobre um carteiro que fica amigo do poeta chileno Pablo Neruda, exilado numa ilha italiana. Não li o livro de Antonio Skármeta que deu origem ao filme, mas O Carteiro de Pablo Neruda é um tratado sobre o palavreado fino transformado em metáforas e o seu valor para expressar emoções. Se fizerem uma lista sobre os melhores exemplos do poder do verbo, incluam por favor a famosa frase da tia de Beatrice: “As palavras são as piores coisas que existem. Eu prefiro um bêbado no bar a apalpar-te o cu do que alguém que te diz ‘o teu sorriso voa como uma borboleta’.”

Se fizerem uma lista sobre as mais completas bandas sonoras para vários momentos da vossa vida, juntem também esta. O filme foi nomeado para quatro Óscares (melhor filme, melhor ator principal, melhor realizador e melhor argumento adaptado) e recebeu um, pela banda sonora original de Luis Bacalov. Justiça suprema. A par das músicas de O Fabuloso Destino de Amélie e de Era Uma Vez na América, os temas de Il Postino devem ser os que mais ouvi até hoje associados a uma película. Já me acompanharam em viagem, já serviram de fundo a horas na cozinha, já me deram inspiração para escrever, já dancei, já chorei e já fiz outras coisas ao som daqueles acordes.

Lembro-me de gravar para duas cassetes diferentes o CD com as músicas e os poemas de Neruda lidos por Sting, Glenn Close, Willem Dafoe, Julia Roberts, Andy García ou Ralph Fiennes. Eu, que nunca fui um leitor de poesia – oh heresia – dava por mim a ouvir as palavras do chileno na voz de atores de Hollywood e músicos. Primeiro ouvi em inglês, depois procurei os originais em castelhano, só mais tarde li as traduções em português.

Se fizerem uma lista de poemas sobre o desamor, não esqueçam Si Tu Me Olvidas, declamado nesse CD por Madonna (em inglês, If You Forget Me), numa das mais duras e sinceras odes aos sentimentos que crescem em conjunto e morrem a meias.

(…)
Ahora bien/ si poco a poco dejas de querer-me/ dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto me olvidas, no me busques/ que ya te habré olvidado.
(…)
Pero, si cada día, cada hora/ sientes que a mí estás destinada con dulzura implacable.
Si cada día sube una flor a tus labios a buscar-me/ ay amor mío, ay mia/ en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida/ mi amor se nutre de tu amor, amada/ y mientras vivas estará en tus brazos/ sin salir de los míos.

À lista de poetas preferidos já juntei Eugénio de Andrade e de vez em quando enterneço-me com Tolentino de Mendonça. Não leio muita poesia, mas a que leio começou por ali: por Neruda lido por Madonna num filme que ganhou um Óscar de Hollywood. O amor move-se por caminhos estranhos. A poesia também.