Os homens deviam saber mais sobre pensos higiénicos

“Estou com o período.” Se há coisa que um rapaz a crescer numa casa com várias mulheres aprende rapidamente é a respeitar esta frase. Não por paternalismo (um miúdo sabe lá o que é isso), não por desculpa, não para evitar conflitos desnecessários, não porque isso o pode colocar num bom patamar de entendimento da anatomia feminina familiar – e, com isso, uma pessoa mais informada e empática. Nada disso. Aprende a respeitar isso porque… isso existe.

É um facto. As mulheres menstruam. Ciclicamente, sangram. Todos os meses. Ponto. E isso pode deixá-las – ou não, depende – com variações de humor, com dores abdominais ou de cabeça e mais fracas fisicamente. E o tal rapaz – o tal que cresce na tal casa com as tais várias mulheres – só tem uma hipótese: viver com isso. Porque elas vivem também.

UMA CARACTERÍSTICA FISIOLÓGICA NATURAL – AS MULHERES MENSTRUAM, ACONTECE PELO MENOS 12 VEZES POR ANO, EM CICLOS DE 28 DIAS – É, AINDA, EM MUITOS LOCAIS, UM FATOR DE MENORIZAÇÃO DA CONDIÇÃO FEMININA.

Eu tenho duas irmãs mais velhas e cresci numa casa onde havia com regularidade pequenos embrulhos de papel colocados discretamente no lixo. Só mais tarde soube o que eram e que o ciclo de vida daqueles pensos brancos e direitinhos que vinham lá para casa em caixas cor-de-rosa ou azul-bebé terminava ensanguentado num caixote.

Também não me lembro, para ser honesto, se os momentos em que os embrulhos surgiam com mais frequência no lixo eram acompanhados de maior ou menor irritação por parte das manas. Talvez estivesse distraído. Mal informado. Ou fosse miúdo e pouco percebesse dos mistérios da tensão pré-menstrual. Ou talvez isso não me ocorresse ou, simplesmente, não fosse uma questão.

Também não me lembro se lá em casa havia a tão famosa sincronia menstrual, que alguns especialistas acreditam que ocorre quando várias mulheres próximas partilham o mesmo ambiente, levando-as, num cocktail de alterações hormonais e feromonas, a menstruar em simultâneo ou com poucos dias de diferença. O “efeito MacClintock” (que deve o nome à psicóloga americana Martha MacClintock que se debruçou cientificamente sobre o assunto na década de 1970) não é consensual na comunidade académica, mas, se isso se verificar, estarei mais atento quando as minhas duas filhas crescerem e começarem a menstruar ao mesmo tempo que a mãe.

Tentarei estar presente para o que elas precisarem ou dar-lhes a distância e chocolates necessários se elas assim preferirem. E tentarei ser tão eficaz quanto for possível na natural dificuldade que tenho sempre para me orientar naquele corredor infindável de supermercado, entre marcas, formatos, abas, superabas, fluxo regular, para a noite, para os primeiros dias, para fim de ciclo, etc.

Nunca entendi bem – e sim, isso é porque cresci entre mulheres – esse pequeno nojo e desconforto que o período provoca. Nunca percebi por que é um tabu para tanto homem e um estigma para tanta mulher. Entendo que deve ser estudado e desmistificado, mas não entendo a falta de informação sobre ele.

Claro que é mais fácil ver uma questão aparentemente tão simples e linear à luz da nossa cultura ocidental e evoluída e avançada e urbana e informada e pós-moderninha. Mas, se viajarmos um pouco ou recuarmos uns anos, facilmente chegamos à conclusão de que isto não é igual para toda a gente. Nem para todos os homens e muito menos para todas as mulheres. E que uma característica fisiológica natural – as mulheres têm o período, acontece pelo menos 12 vezes por ano, em ciclos de 28 dias – é, ainda, em muitos locais, um fator de menorização da condição feminina. O argumento para serem consideradas impuras, não dignas, não capazes.

Uma forma também de opressão por parte dos homens. E só por isso. Porque sangram todos os meses, num sinal de renovação que lhes permite fazer uma coisa que os homens não conseguem: gerar vida. Há coisa mais injusta do que isso? Infelizmente, isto ainda é um assunto. E, por isso mesmo, temos de falar dele.

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