Praguejar é um alívio

“Puta que pariu…” De todas as asneiras do vernáculo português, esta é a minha preferida. Não é a que gritamos quando nos salta a tampa, não é para este sítio que mandamos alguém que se atravesse à má fila num cruzamento quando o sinal está verde para nós. Esta é a que deixamos escapar de mansinho, entre dentes, acompanhada de um abanar de cabeça quando estamos desapontados com o mundo, quando olhamos para a cagada que acabámos de fazer por entornar a água toda do esparguete em cima da bancada, quando reparamos que há 35 pessoas à nossa frente na fila das Finanças ou quando percebemos que, apesar de serem oito e meia da manhã, já não há mais senhas para renovar o Cartão de Cidadão.

Há quem substitua o “puta que pariu” pelo “c’um caralho”. Deve ler-se baixinho, um alívio sussurrado, mas não tão apagado a ponto de não se ouvir. Porque as asneiras, para fazer efeito, têm de ser proferidas. Não podem apenas ser pensadas. Assim não resultam. Por vezes podem vir com reticências, como estas duas, outras com pontos de exclamação. Com um valente “foda-se!”, por exemplo. Quando nos queimamos, quando batemos com o carro, quando damos uma cabeçada num armário, quando pisamos uma peça de lego com o pé descalço a meio da noite.

Dou bastante valor às asneiras e acho que, em algumas alturas, podem até ser excitantes. Não no sentido kinky da palavra, mas como sinal de inteligência e capacidade de baixar por momentos os filtros sociais.

Uma asneira pode ajudar-nos a ultrapassar momentos de privação ou de falta de controlo, dando-nos a falsa ilusão de que, naquele segundo, a tensão vai aliviar e as coisas ficarão melhor. Não é como uma descarga de adrenalina para nos deixar mais alerta e mais aptos a fugir de um perigo iminente, mas anda lá perto. Pelo menos no consolo que sentimos. É essa a conclusão de um estudo conduzido por Richard Stephens, investigador da Universidade de Keele, no Reino Unido. O psicólogo inglês analisou as reações de um grupo de voluntários que experimentavam videojogos e concluiu que estes “fizeram as pessoas sentir-se mais agressivas, pelo que a sua linguagem se tornou mais emocional”. No shit, Sherlock? Resultado, “quando estamos mais instáveis, dizer estas palavras pode fazer-nos sentir mais fortes”.

Dou bastante valor às asneiras e acho que, em algumas alturas, podem até ser excitantes. Não no sentido kinky da palavra, mas como sinal de inteligência e capacidade de baixar por momentos os filtros sociais. Não gosto de ouvir ninguém a vomitar um chorrilho de palavrões a toda a hora, mas acho natural e até correto que se solte um “olha que merda” em alguns momentos. Faz-nos pensar que aquela pessoa é humana. De carne e osso. Durante muitos anos, encarei as asneiras com tanta naturalidade que chegava a dizer que era uma qualidade que apreciava em possíveis namoradas: elas teriam de dizer asneiras. Depois cresci e deixei de dizer isto em público, mas continuo a dar valor ao efeito que podem ter.

“Os palavrões carregam mais conteúdo emocional do que quaisquer outras palavras, e por isso as pessoas utilizam-nas para insultar, aliviar ou exprimir sentimentos extremos de felicidade, tristeza ou surpresa”, escreve a norte-americana Melissa Mohr, especialista em literatura medieval e renascentista da universidade de Stanford, EUA, no livro Holy Sh*t: A Brief History of Swearing (ed. Oxford University Press, 2016).

Eu não sou propriamente um ordinário que passa a vida a praguejar. Há normas de conduta social a que importa obedecer e, claro, há duas crianças lá em casa a quem tenho de explicar que não podem dizer “foda-se” quando lhes apetece, só porque ouviram o pai desbocado. Um dia logo lhes explico que isso de exprimir emoções através do asneiredo até é sinal de inteligência emocional. Mas por enquanto tenho de continuar a usar os “puta que pariu” baixinho. Com o tempo, elas aprenderão a fazê-lo. Fónix!