Prematuros: bem-vinda, Noa, bem-vindo, Leo

Sí, mi corazón siempre estará donde esté tu corazón, si tu no dejas de luchar. Y nunca pierdes la ilusión, nunca olvides que alfinal habrá un lugar para el amor.

Todos os dias, por volta das 15h00, Hemi tira a camisola, reclina-se de barriga para cima e canta para a filha Noa. Herminia é espanhola, estes versos em castelhano de La Vida Es Bella saem-lhe naturalmente, entoados baixinho da boca para fora e sentidos bem alto pelo coração adentro. Corações adentro. O dela e o da filha, pele com pele, corpo contra corpo, num «marsupial» físico e emocional de quatro horas, com direito a sesta, para estimular a produção de leite e transmitir calor, conforto e proteção ao ritmo das batidas cardíacas e da voz, amplificada pela ressonância da caixa torácica. Hemi já sabia que o coração sente. Agora sabe que também pode ouvir, por muito pequeno que seja – Noa nasceu prematura, com 770 gramas, às 28 semanas e quatro dias de gestação.

No dia seguinte, Hemi troca com o marido. Trocam os pais e trocam os filhos. Carlos (ele gosta de cantar A Minha Menina, d’Os Mutantes) faz «canguru» com Noa, ela fica com Leo, o irmão gémeo, que nasceu com 1290g. O peso extra do rapaz deu-lhe um pouco mais de resistência, mas nem por isso deixa de ser um bebé de alto risco. Tal como todos os prematuros que nascem anualmente em Portugal: das 87.500 crianças registadas em 2016, por exemplo, 6801 eram prematuras (com menos de 37 semanas de gestação), o que representa 7,8% do total. Como tinham menos de 32 semanas, a Noa e o Leo fazem parte do um por cento de «muito prematuros».

E a Hemi e o Carlos fazem parte do grupo de pais que todos os dias passa algumas horas nos serviços de neonatologia. No caso deles, oito a dez horas no Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, onde têm tido o apoio clínico e emocional necessário a esta aventura – e de onde só sairão dentro de uns dois meses, quando os gémeos estiverem perto dos dois quilos, atingirem a estabilidade respiratória e clínica e conseguirem engolir sozinhos, essencial para a sua alimentação e desenvolvimento.

Talvez nesse altura, quando a data de alta estiver próxima, quando conseguirem apontar para um calendário e riscar os dias que faltam para levar os gémeos para casa, quando começarem a pensar o que vão fazer quando o enfermeiro não estiver lá de noite e forem só eles os dois a tomar as decisões essenciais para proteger e alimentar e aquecer e lavar os filhos, talvez nesse momento comecem a ficar nervosos. Ansiosos. Preocupados. Aquela sensação que os pais têm ao sair da maternidade, misto de suor frio e coração quente com o menino nos braços, num carro a vinte à hora… lembram-se dessa sensação? O Carlos e a Hemi ainda não conseguiram sentir nada disso. Ainda não entraram na casa nova que compraram – e na qual fizeram obras porque a vida ia mudar para sempre – com a sensação de terem a família alargada.

Por enquanto continuam a fazer piscinas diárias a caminho do hospital. Por enquanto, garante-me ele, estão calmos. Tranquilos. Sabem que estão em boas mãos. Que os filhos estão em boas mãos. Sabem que têm com quem falar e que há quem os queira ouvir. Sabem que há quem lhes responda às perguntas e quem lhes enxugue as lágrimas, se for preciso. Sabem que há um sítio – a que regressam todos os dias – onde os tratam pelo nome e onde conhecem o nome dos filhos. Um sítio onde estão em casa antes da casa.

A Hemi e o Carlos são meus amigos, nas últimas semanas acompanhámos, com o detalhe necessário que a amizade implica e a reserva de privacidade que a situação exige, as horas que se seguiram ao internamento de urgência, os primeiros minutos dos gémeos cá fora e a preocupação com a maturidade pulmonar, as primeiras 24 horas depois de um cesariana de risco que envolveu uma anestesia geral, os primeiros dias de uma situação em que queríamos estar perto mas respeitámos a necessidade de estar longe.

Só ontem, três semanas depois do nascimento da Noa e do Leo, soube que as primeiras imagens que Hemi viu dos filhos foram filmadas pelo marido – ele é profissional de cinema, de certeza que a fita estava bonita – e que só lhes tocou na pele um dia e meio depois do parto. Só ontem soube que as primeiras palavras que Carlos lhes dirigiu, duas horas depois de nascerem, foram “bem-vindos”. Só ontem soube que ele esperou para estar sozinho para então poder desabar – e que valente que tem sido. Só ontem percebi que pegar num filho ao colo vários dias depois de ele vir ao mundo deve ser, para um pai e para uma mãe, como se ele nascesse duas vezes. Só ontem soube tudo o que não se reproduz aqui, porque nem tudo é público (e o que é reproduzido leva a autorização deles). E só ontem tive a certeza, ao falar com ele, que mesmo quando escolhemos estar sozinhos, conseguimos sentir todo o amor e apoio dos amigos à volta. Como se estivessem lá.

E estamos…

Siga-nos no Facebook e fique a par de todas as crónicas de Paulo Farinha.