“Desenha-me uma ovelha”: As nossas pessoas são as que percebem os nossos desenhos

– Desenha-me uma ovelha.

Como eu nunca tinha desenhado uma ovelha, fiz-lhe um dos dois únicos desenhos que sabia fazer. O da jibóia fechada. E fiquei boquiaberto quando ouvi o rapazinho dizer:

– Não! Não! Não quero um elefante dentro de uma jibóia para nada! As jibóias são perigosas de mais e os elefantes ocupam espaço de mais. O meu sítio é muito pequenino… Preciso é de uma ovelha. Desenha-me uma ovelha.

Dizem que os amigos são a família que escolhemos. Como a palavra «família» é tão pesada e tão rica, e como as pessoas que estão cá, na família, são tão importantes para os nossos limites e para nos balizar caminhos – e para nos mostrar novos –, sempre achei que o estatuto de «familiar» se devia conquistar e não ser dado por adquirido.

A família que nos calha em sorte depende de uma lotaria do cosmos. Ok, também depende da genética, do ambiente, do sítio em que crescemos e da quantidade de amor que havia lá por casa.

São «as nossas pessoas» aquelas a quem recorremos quando precisamos de companhia para aquele copo de vinho que vai regar sentimentos e desabafos

A família dos amigos, essa sim, vamos depurando, encaixando, aprimorando e condimentando à medida que crescemos. Mas há outra categoria de proximidade a que aprendi a dar valor nas relações humanas.

São «as nossas pessoas». As que levamos connosco. As que queremos perto em momentos-chave da nossa vida, não necessariamente em todos, que queremos manter ao alcance de um telefonema ou de um olhar em caso de SOS ou de brinde.

Podem não ser as primeiras para quem enviamos uma mensagem a dizer que aterrámos bem no local de destino de férias e que o voo decorreu sem problemas (essas vão para a mãe e para o pai, que ainda hoje ficam com o coração nas mãos de cada vez que vamos viajar), mas é para elas que mandamos aquele WhatsApp quando vemos uma montra que nos transporta para uma piada feita há dez anos, é delas que nos lembramos quando precisamos de ter uma conversa séria sobre o futuro da nossa relação, é a elas que recorremos quando precisamos de companhia para aquele copo de vinho que vai regar sentimentos e desabafos.

As nossas pessoas são as que percebem os nossos desenhos. Não por serem muito rebuscados ou por desenharmos mal ou porque usamos materiais diferentes. Mas apenas porque elas sabem o que nós queremos dizer

As nossas pessoas podem até não fazer parte do grupo de amigos mais restrito. Mas precisamos delas para não ter de falar quando as palavras teimam em não sair.

As nossas pessoas estão perto mesmo que estejam longe e fazem-nos falta nos momentos em que a alegria é tanta que tem de ser partilhada – e nos momentos em que a tristeza é tanta que tem de ser percebida.

As nossas pessoas são as que percebem os nossos desenhos. Não por serem muito rebuscados ou por desenharmos mal ou porque usamos materiais diferentes. Mas apenas porque elas sabem o que nós queremos dizer – às vezes até antes de o dizermos. Às vezes, até, antes de o pensarmos.

As nossas pessoas são as que percebem o que significam para nós. O bem que nos fazem e como nos preenchem quando nos falta um pedaço.

Lembram-se da alegria do aviador quando, no meio do deserto, encontrou um menino que percebia os desenhos dele? Esta passagem d’O Principezinho, de Saint-Exupéry, devia ser lembrada mais vezes às pessoas com quem nos cruzamos e que não queremos que saiam da nossa vida.

Preciso de uma ovelha. Desenha-me uma ovelha.
E eu desenhei.

 


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