O arraial do Algueirão, da Bobadela, de Caxias e da Reboleira: os santos populares no subúrbio

Lembro-me da primeira vez que servi uma cerveja a alguém. “Ó Farinha pequeno, anda cá”, disse-me o Sr. Ramos [Farinha grande é o meu pai]. E passou-me um papel colorido para a mão: “1 mini”. Estava escrito a correr, tinha marcas de dedos sujos e um número impresso. Mas, para mim, era o livre-trânsito para uma nova fase. A partir daquele dia, eu, pré-adolescente, já era suficientemente crescido para servir minis.

Durante os dois ou três anos seguintes, aquele era o nosso ritual das noites de junho. Eu, o Sérgio, o Nuno e mais uns quantos íamos dar uma ajuda no arraial da paróquia da Reboleira, na Amadora. Duas minis, uma bifana e três sardinhas. Uma água, duas colas e um chouriço assado. Se o chouriço acabava, passava a bifana. Alguém recebia dinheiro e escrevia em pequenas senhas o que valia o papelinho colorido. Nós só tínhamos de ler e ir buscar o que lá dizia.

Do lado de cá das mesas cobertas com toalhas de plástico, junto aos velhos barracões onde durante anos se deu catequese enquanto a nova igreja não estava pronta, havia grades de cerveja, uma cozinha improvisada, muitas caixas de águas, refrigerantes e um pequeno exército de gente que não fazia daquilo vida e por isso se atropelava de forma mais ou menos pacífica. Do lado de lá… era o baile.

Havia um palco com caixas de madeira onde um músico com uma guitarra ia tocando clássicos brasileiros de festa e uma multidão de gente dançava. “Dizem que cachaça é água… Ó meu amigo Charlie, Charlie Brown… Se você quiser, vou-lhe mostrar, o Rio de Janeirono seu Carnaval…” O pimba já existia mas ainda não tinha esse nome. Estávamos no final dos anos 1980 do século passado, havia Tonicha e José Cid, mas ainda não se cantava Emanuel, Toy ou Tony Carreira.

Antes de começar a rumar à Bica, a Alfama ou à Graça, em Lisboa, eram aqueles os santos populares que eu e os meus amigos tínhamos. Não ligávamos aos bairros típicos de Lisboa, não sabíamos o que eram os tronos do santo, não percebíamos muito disso dos casamentos de Santo António. E a ideia de levar com um alho-porro na cabeça durante uma noite toda na Boavista ou na Ribeira era só estranha. Nos arredores, junho era festa. A tradição histórica e cultural só viria mais tarde.

Junho é o mês dos santos e, para mim, António, João e Pedro não tinham poiso certo. Santo António não é só de Lisboa, São Pedro não é só festa rija em Sintra, São João não tem direito a noitada apenas no Porto. Para mim, os santos eram do país todo. Todos os meus amigos os celebravam, todos os meus amigos saltavam as fogueiras, todos os meus amigos tinham manjericos em casa. Por isso, para mim, aquele era o mês dos arraiais. Fosse junto às obras da igreja da Reboleira ou noutro sítio qualquer. Ainda que as reportagens da televisão só mostrassem Alfama, Graça, Bica ou a Ribeira do Porto.

Uma pesquisa rápida na internet faz-me perceber que, por estes dias, há arraiais no Algueirão, sardinhadas em Caxias e marchas populares em Mafra – e na Amadora, claro. Continua a haver festas à volta de Lisboa, onde junho continua a ser o mês dos santos, seja em farras grandes ou pequenas. Nos subúrbios, António, João e Pedro continuam a ter aquele sabor a quase-verão com cheiro de cerveja e manjerico e música pimba a acompanhar.

Não deve haver melhor forma de celebrar os santos do que essa. São populares porque vão aonde está o povo. Vão a todo o lado. Do centro ao subúrbio.