Sexo no espaço: a última fronteira?

Voando diretamente para a resposta à pergunta do título, sem grandes preliminares: a NASA diz que é possível. Ou melhor, depende. Tecnicamente falando é possível ter relações sexuais em ambiente de gravidade zero. Essa é a boa notícia para quem pensa que ainda poderá colonizar Marte, fazer turismo espacial romântico ou trabalhar (e divertir-se) num vaivém. A má notícia é que apenas quatro posições parecem ser práticas para o coito galáctico.

É pelo menos essa a ideia da agência espacial norte-americana, de acordo com um relatório secreto sobre sexo em órbita. A revelação foi feita em fevereiro de 2000, no livro The Final Mission: Mir, The Human Adventure, da autoria de Pierre Kohler, um conhecido divulgador científico francês.

O escritor terá tido acesso às conclusões do projeto STX-XX, executado numa missão do space shuttle em 1996 para aferir se o sexo era possível em circunstâncias orbitais e quais as melhores posições para tal. Das mais de dez que experimentaram (de uma pré-seleção de vinte feita por computador), os astronautas concluíram que, sem «ajuda mecânica», apenas quatro oferecem condições de segurança e conforto – e nenhuma é a de missionário. As restantes seis precisam de acessórios complementares, como cintos elásticos ou um saco-cama sem extremidades. Nada de coisas kinky, portanto, apenas auxiliares de movimentos. O objetivo do estudo seria fornecer informações aos cientistas para avaliação de futuras missões planeadas para astronautas casados que iriam passar longos períodos na futura Estação Espacial Internacional, sucessora da MIR soviética.

No mesmo livro, Kohler adianta ainda que a Rússia também já encetou experiências semelhantes para tentar saber ao certo como seria possível (e confortável) a sobrevivência de seres humanos durante largos anos em órbita. Claro que nem Washington nem Moscovo confirmam estas informações, consideradas um tabu interplanetário, mas o autor francês garante a credibilidade dos estudos: já houve sexo no espaço, com astronautas e cosmonautas empenhados. Mais: até há um vídeo na NASA, guardado a sete-chaves, mas é uma versão softcore previamente editada.

A história foi originalmente publicada no The Guardian em fevereiro de 2000, um dia depois do lançamento do livro de Kohler, assinada por Jon Henley, na altura correspondente na capital francesa e atualmente especialista em assuntos europeus do jornal britânico. Em dezembro de 2007, num daqueles mistérios da internet, o artigo começou novamente a circular e ganhou mais força do que um foguetão. Em poucos dias, uma pequena notícia sobre sexo orbital entrou à velocidade da luz para a lista dos mais lidos do jornal. E foi partilhada e repartilhada por outros órgãos de comunicação social, deixando uma poeira cósmica viral. Ora, com mais audiência vem mais escrutínio. E em menos de nada um leitor chamou a atenção para um pequeno grande detalhe que o The Guardian desconhecia há sete anos: isto é falso!

Pouco tempo depois do lançamento do livro do francês especialista em ciências, a NASA emitiu um desmentido, garantido que, se algum houve algum coito nos seus vaivéns, eles não sabiam de nada. O relatório é falso, o projeto STX-XX nunca existiu. Fora do chão, pode ter havido sexo consentido, mas foi bem escondido.

Em jornalismo há uma velha piada que, em tempo de fake news, deve ser usada com muito cuidado: é uma pena quando a realidade estraga uma boa história. Este é um desses casos.