O subúrbio do subúrbio

Durante trinta anos vivi na Amadora. Cresci na Reboleira, para onde os meus pais se mudaram em 1965 com uma filha, antes da chegada dos outros dois. A freguesia já não existe, foi extinta e dividida em duas na reforma administrativa de 2013, mas aquela zona da cidade será sempre a Reboleira. E haverá sempre a Reboleira Sul, a zona das torres altas junto à estação de comboio, colada à Damaia, e haverá sempre a Reboleira, a outra, que vai do liceu (não lhe chamamos escola secundária) à Academia Militar, passando pela Avenida da Aviação Portuguesa e acabando na Clínica de Santo António. Pelo meio os famosos apartamento T0 e T1 do J. Pimenta. E, claro, o estádio do Estrela.

Jardim-de-infância, primária, ciclo preparatório, secundário. Tudo na Reboleira. A minha geografia dos afetos de infância e adolescência faz-se por ali, por aquelas ruas onde brinquei, onde me escondia com namoradas, as casas de amigos, os cafés que frequentávamos. A Reboleira era – e ainda é – um microcosmos quase autossuficiente.

Tínhamos ali tudo o que precisávamos. Escolas, oficinas, centro de saúde, mercearias, supermercados – o hipermercado Continente, inaugurado em 1987, era tão perto que íamos a pé –, farmácias, finanças, drogarias, piscina, cafés, amigos.

Por isso, sempre que precisávamos de ir ao centro da cidade, dizíamos que íamos “à Amadora”. Como se não estivéssemos já lá. Íamos comprar roupa, íamos ao médico, íamos a uma ou outra loja que não havia na Reboleira, íamos lanchar a algum café mais especial, íamos ao Babilónia (o das páginas anteriores), íamos apanhar o comboio para a estação do Rossio, que nos levava ao centro do centro. Íamos fazer o que fosse preciso. A distância era curta, dez minutos a pé, cinco de autocarro, nas carreiras da Rodoviária Nacional que vinham de Algés ou Belém, mas íamos “à Amadora”.

Apesar de estarmos na periferia de Lisboa, num dos grandes dormitórios de milhares que todos os dias se deslocam para o centro, nós estávamos, na prática, no subúrbio do subúrbio. E isso era das melhores coisas que podia haver. A Amadora era a nossa cidade, era ali que estava o nosso mundo, mas na verdade pertencíamos aos arredores. Só lá íamos quando tinha de ser.

Aos 25 anos saí de casa dos meus pais e comprei a minha. Fiquei, claro, na Amadora. Era lá a minha zona de segurança, era lá que estavam os amigos, a namorada, a família. Deixei a Reboleira e fui para a Falagueira (os nomes das freguesias são todo um tratado). A mesma da fábrica da Sorefame onde eram montados os comboios da CP. Estava mais perto do centro e, por isso, deixei de dizer que ia “à Amadora”. Ali sim, eu sentia que já lá estava.

Acabei por ficar mais perto de Lisboa, cidade para onde me mudei cinco anos depois. Mas – e esta adversativa faz sentido aqui – fui viver para Benfica. Ora, Benfica é a freguesia mais colada à Amadora. Geograficamente e urbanisticamente tão colada que é quase como se fosse uma extensão do grande subúrbio. Durante os anos que ali vivi, de cada vez que tinha de ir ao Marquês de Pombal, ao Chiado ou ao Rossio, eu dizia que ia “a Lisboa”. Eu já lá estava, mas aquilo, para mim, não era Lisboa. Aquilo era quase tão periferia como a Falagueira ou a Reboleira. Ou o Casal de São Brás ou a Venteira. Ou, melhor ainda, a Damaia ou a Venda Nova, as freguesias da Amadora que faziam fronteira com Benfica.

Os meus amigos de Benfica não percebem isto, claro. Para eles será heresia comparar a freguesia deles ao que quer que seja. Devem mesmo ficar ofendidos ou pensar que eu sou parvo. Benfica é Lisboa, é o estádio da Luz, é o Fonte Nova, é o Colombo, é o Fofó, é a cervejaria Edmundo, é o Califa, vão eles dizer. Mas nós, os da Amadora, não vemos grandes diferenças nisso. São tão subúrbio como nós.

Entretanto, os meus pais continuam na Reboleira. Saíram do terceiro andar sem elevador para um rés-do-chão, na rua de baixo, a duzentos metros de distância da primeira casa. É aquela a geografia dos afetos deles. E ainda dizem que vão “à Amadora”.