Vais à terra na Páscoa?

Nunca fui a uma matança de porco. Nunca ouvi o guincho do animal quando sente a lâmina a entrar-lhe na pele. Ainda que o meu avô tivesse tido porcos ao longo da vida e tivesse feito algumas matanças – era ele que desmanchava o animal, garante a minha mãe –, já não sou do tempo de o ver com saúde para cuidar dos suínos. Mas lembro-me bem do curral transformado em pocilga, ao fundo do quintal. Lembro-me do cheiro das pedras e da porta de madeira.

Todos os anos regressávamos. Na Páscoa e no verão. Tal como milhares de portugueses que voltavam com as famílias à terra onde cresceram e de onde saíram, carros cheios até acima do tejadilho, porta-bagagens onde não cabia mais um ovo, arrumado pelo pai durante duas horas antes de arrancarmos, toda a gente com coisas em cima das pernas e aos pés, viagens de cinco e seis horas num tempo em que o país não estava alcatifado de autoestradas.

Na verdade, quem regressava eram os meus pais. Eu e as minhas irmãs nascemos em Lisboa e, para nós, a terra era a aldeia dos avós onde íamos na Páscoa para três dias de procissões e barriga cheia e no verão para as férias grandes com os primos e os tios. Os meus pais, sim. Eles é que regressavam à Beira Baixa onde nasceram, cresceram e trabalharam antes de partir para a cidade grande à procura de trabalho, casa, sítio onde criar uma família, com escolas e hospitais, emprego para os filhos e ideia de um futuro bom. Num tempo em que não se falava da CEE nem de cursos universitários para todos, antes do crédito à habitação e do carro próprio.

Na Páscoa, arrancávamos na quinta-feira santa, ao fim do dia, a tempo de assistir à procissão do Encontro. No verão, saíamos no início de agosto ou por volta do dia 15, conforme as férias que os meus pais conseguiam marcar. Tinha é de apanhar o terceiro fim de semana de agosto, altura das festas do Senhor do Calvário, em que, com alguma sorte, iríamos ver a Tonicha, o Trio Odemira ou a Cândida Branca Flor no arraial. Além da missa e da procissão de domingo em que eu estreava roupa nova.

Eu não percebia bem como é que amigos meus iam para o Algarve quando nós íamos para a terra. Como é que alguns colegas da escola iam para o sul de Espanha em vez de irem para a terra dos pais. Para mim, todos os pais teriam uma terra, um sítio longe onde se demorava a chegar, onde viviam os pais deles e onde os meus amigos passavam férias. Para mim, miúdo dos subúrbios com prédios e pracetas e ruas e avenidas que cresceram ao mesmo tempo do que eu, aquele era o sítio onde viviam os adultos que não eram dali. Ninguém podia ser dali. Nenhum crescido podia ter nascido num sítio assim.

Depois de eu nascer – sou o mais novo dos netos –, os meus avós ainda viveram uns anos sozinhos na casa que hoje está dividida pelos herdeiros. Quando íamos para a terra, portanto, era também para eles que voltávamos. Eram eles quem nos recebia. E eram eles quem ficava de lágrimas nos olhos quando agosto chegava ao fim e voltávamos a fazer-nos à estrada, novamente de carros cheios. Depois vieram os tempos dos hospitais e das temporadas em casa dos filhos. Os anos pesavam e a terra – que eles representavam – começou a estar mais presente nas nossas vidas. Eram eles que vinham para cá.

Continuamos a ir à terra e ainda vamos com os meus pais – que passam lá longas temporadas, mas é nos subúrbios de Lisboa que têm a vida. As minhas filhas conhecem a terra, mas chamam-lhe a aldeia. Não sei como será quando elas tiverem filhos. E que ligação conseguiremos manter entretanto. E que cheiros vão elas recordar. A mais velha perguntou-me há tempos o que se guardava para lá daquela porta de madeira ao fundo do quintal. Não acreditou que vivia lá um porco.