Deitar fora a tralha que não interessa

“Não tenho nada em minha casa que não possa transportar no meu carro.” Devíamos estar em 2003 ou 2004, conversávamos enquanto íamos andando ao longo de uma rua com poucos automóveis e árvores altas despidas de folhas, ladeada por prédios bonitos com casas de grandes janelas, e a frase da minha amiga mexicana, que eu conhecia há pouco tempo, pareceu-me apenas divertida. Falávamos sobre o tamanho das salas que conseguíamos ver para lá dos vidros das janelas, de como eram estupidamente grandes, quando ela disse aquilo. “Vou mudar de casa em breve. Para uma mais pequena.” E, para facilitar a mudança, Selene ia novamente aplicar uma regra que já tinha há uns anos: tudo o que lhe entrava em casa e fazia parte do quotidiano dela tinha de caber no carro – e não, não era uma Ford Transit nem uma Toyota Hiace.

Primeiro pensei que fosse por questões de dinheiro. Mais metros quadrados, mais pesos mexicanos ao fim do mês, menos área, menos renda. Mas não. Também pensei que estivesse a mudar para uma zona mais central da Cidade do México, melhor localizada, com melhores transportes. Com casas mais caras e, por isso, precisava de uma mais pequena para enfrentar o embate. Também não. Divórcio? Não. Sair de uma casa partilhada com amigos? Não. Íamos caminhando por aquela rua de Washington, DC, em direção ao metro que nos levaria à sede da National Geographic, onde participávamos num seminário anual para as edições internacionais da revista da moldura amarela, e eu ia fazendo filmes na minha cabeça. “Por que raio vais tu mudar para uma casa mais pequena?” A razão, porém, estava para lá das minhas hipóteses: desapego. Selene queria um apartamento mais pequeno porque achava que o T1 que partilhava com o gato era demasiado grande para os dois. Com demasiadas coisas.

A minha amiga mexicana foi a primeira pessoa que conheci que me falou daquilo: de ter menos. De viver com menos. Em casas mais pequenas, com menos objetos. Sei que a coisa ganhou contornos de tendência mundial nos últimos anos, que há quem defenda que podemos viver apenas com um colchão no chão, meia dúzia de peças de roupa, quatro ou cinco livros, um router e um telemóvel com wifi. E sei que há livros sobre isto, sites sobre isto, documentários sobre isto. Gente que quer “destralhar” a casa para poder “destralhar” a cabeça e viver apenas com o essencial. Eu não sei se têm filhos e quão disciplinadas terão de ser as crianças nos seus quartos espartanos para não terem brinquedos espalhados por todo o lado, mas se houver apenas trinta metros quadrados de área útil por onde deixar legos e peluches, também não dá muito trabalho a arrumar na única caixa permitida.

Nuns tempos com tantos estímulos sensoriais na nossa vida, a ideia de acumular menos parece-me francamente sensata. Difícil de colocar em prática, mas sensata. Com menos distrações e menos obstáculos físicos, talvez erguêssemos menos paredes mentais que facilmente se revelam labirintos onde perdemos tanto tempo.

Fiquei amigo de Selene, ela visitou-me em Lisboa dois anos depois na minha gigantesca casa de cinquenta metros quadrados, e ainda hoje nos falamos. Não sei se continua a gostar de espaços pequenos, “que possa controlar” e “por onde a energia não se possa dispersar muito” (não sei se a frase foi mesmo esta e talvez as aspas sejam um pouco forçadas), mas do que vou vendo pelo Facebook continua bastante minimalista. Parece-me feliz. E diz que vive mais. Com menos.