Vidas que salvam vidas

Neurocirurgiões e pilotos de avião. Sempre tive um fascínio por estas profissões, pelo nível de dificuldade que as respetivas formações acarretam e pela enorme responsabilidade que estes profissionais têm nas mãos – que se querem firmes e precisas, capazes de manter gestos certeiros que salvam e protegem vidas.

Mas sei bem que todas as ocupações têm os seus picos de stress e momentos mais calmos. Há umas mais arriscadas do que outras e umas que interferem mais com a vida dos que estão à volta do que outras. Mas todas têm os seus desafios.

E, claro, há pessoas melhores do que outras a guardar os problemas e angustias do trabalho e a deixá-los fora da porta. Há quem conte ao marido ou à mulher tudo o que faz desde que liga o computador de manhã até que chama o elevador ao fim da tarde. E há quem não leve absolutamente nada para casa porque não é do seu feitio fazê-lo.

Eu sou um fala-barato. A minha mulher sabe coisas do meu dia-a-dia, dos meus colegas, das minhas dificuldades, das minhas alegrias ou das minhas chatices. Há dias em que chego e tenho tanta necessidade de falar que ela é capaz de estar um quarto de hora a ouvir e a acenar com a cabeça porque sabe que preciso de deitar aquilo tudo cá para fora. Na verdade, devo ser mais um desbocado do que um fala-barato. E depois há aquelas noites em que fala ela. E em que eu, respeitosamente, enfio a viola no saco e cubro-me de vergonha por achar que tenho problemas no trabalho ou vou salvar o mundo através de uma reportagem que me passou pelas mãos.

A minha mulher é enfermeira, especialista em saúde infantil e pediátrica numa unidade de cuidados na comunidade do Serviço Nacional de Saúde, e todas as semanas lida com o melhor e o pior do ser humano. E logo na célula mais pequena e importante da vida em sociedade: a família. Todos os dias tem de fazer opções sobre os sinais a que deve estar atenta e os que pode relevar, sobre os alunos de uma escola que precisam de algum acompanhamento especial, sobre um pai ou uma mãe que precisam de ajuda – ou de distância dos filhos, para proteção destes.

Na maior parte das vezes, a enfermeira lá de casa não diz absolutamente nada, porque precisa de criar zonas de conforto e segurança em que se sente protegida dos males do mundo e porque, naturalmente, tem uma reserva de sigilo perante os casos que lhe passam pelas mãos. Mas depois há os outros, os dias, em que precisa de explicar a frustração de não conseguir fazer mais e os muros burocráticos e institucionais que não a deixam fazer mais.

O Serviço Nacional de Saúde português é uma gigantesca e extraordinária máquina de gente, documentos, instituições e procedimentos que salva vidas, zela pelo nosso bem estar e suga anos de vida aos milhares de profissionais dedicados que trabalham na sombra. Como em todo o lado, há gente melhor e gente pior, gente que executa as tarefas com mais brio ou mais desinteresse. Mas há, sobretudo, histórias extraordinárias de devoção à causa pública que vão muito para lá do mero exercício de funções em troca de um ordenado

Sou marido de enfermeira e sou filho de enfermeira. Calhou assim na lotaria sentimental e, admito – Freud talvez explique – há um lado de admiração que transferi da minha mãe para a minha mulher. Cresci entre corredores de hospitais e centros de saúde, entre turnos intermináveis e cansativos, entre ordenados miseráveis e meses que sobram no fim do dinheiro, entre histórias de vidas salvas por um fio e outras que não se conseguiram salvar. Cresci a respeitar uma classe que é tantas vezes desconsiderada, pouco compreendida e ignorada. E que devia ser mais respeitada. Porque todas as profissões contam. E todas, à sua maneira, salvam vidas.