Perfeito, perfeito, era voltar a repetir tudo. Mas sem as partes más.

TROCARAM VOTOS, ALIANÇAS, BEIJOS. Abriram o baile, cortaram um bolo a duas mãos, ofereceram recordações da data. E nós, os que estávamos lá, aplaudimos, emocionámo-nos, rimos, tirámos muitas fotografias, comemos, bebemos. E bailámos. Dançámos os pimba e dançámos os Cure, os Smiths e os Queen. No final daquela noite, alguns deitaram-se bêbedos. E, na manhã (tarde?) seguinte, uns quantos acordaram com dor de cabeça. Tudo normal. Tudo perfeito. O dia em que a Filipa e o Ricardo casaram foi assim: perfeito.

NÃO PODERIA TER SIDO de outra forma. Até porque, possivelmente, estes dois personificam isso mesmo: o modelo de casamento perfeito. Talvez eu esteja a colocar a fasquia bastante alta e os próprios noivos, ao lerem isto (eles não leram antes), não achem graça à pressão. Eles não querem ser exemplo para ninguém. Cada um sabe de si, das suas dores e casamentos e de como deve ou não usar estas palavras juntas na mesma frase. Mas, em bom rigor, eles já sacudiram isso. A pressão. Sem o saberem, sem terem feito planos nesse sentido, eles já arrumaram essa necessidade de que tudo corra bem. Já viveram isso. E depois de o fazer, passaram ao nível seguinte: separaram-se. E foi talvez aí que isto se tornou perfeito. Ou cósmico, se preferirem.

A FILIPA E O RICARDO conheceram-se, gostaram um do outro, apaixonaram-se, começaram a namorar. Viajaram, visitaram sítios e pessoas, viveram histórias. E, três anos depois, acabaram a relação. Não era aquilo que queriam naquele momento das suas vidas. Cada um para seu lado, foram conhecer outros mundos, apaixonar-se por outras pessoas, viver outras histórias. Foi assim durante sete anos – em que chegaram a ver-se por acaso meia dúzia de vezes, algumas delas com outras pessoas ao lado. São fantásticas, as voltas da vida, não são? Até que voltaram a encontrar-se. Encontrar-se, mesmo. E a encantar-se. Estavam mais velhos, mais experientes, tinham mais histórias para contar um ao outro. Para partilhar e para aprender. Conhecem-se há 14 anos e metade deles estiveram juntos. A outra metade estiveram a enriquecer por dentro. Noutros sítios. Quando recomeçaram o namoro – e quando decidiram casar e fazer daquele dia uma coisa tão perfeita para eles e para nós–, já se conheciam suficientemente bem para terem vontade de não repetir erros. Os mesmos erros, pelo menos. Eram as mesmas pessoas, mas suficientemente diferentes para se apaixonarem novamente. Não é perfeito, isto? Talvez o truque para uma data de anos de vida em comum passe, afinal, por aí: uma separação pelo meio. Foi arriscado. Mas eles não o fizeram de propósito. Fizeram-no porque era o que sentiam na altura. E porque precisavam de outras experiências na altura. Se calhar, se não as tivessem vivido, não estariam agora juntos.

INFELIZMENTE, PORQUE HÁ COISAS que não controlamos, naquele dia perfeito não cheguei a horas de assistir a um dos pontos altos da festa. Tenho pena de não ter ouvido o bonito discurso do padrinho do noivo. Li-o mais tarde, depois de o Ricardo, a pedido de várias famílias, o disponibilizar no grupo fechado do Facebook que criou a propósito do casório. Talvez porque o padrinho é jornalista, talvez porque escreva muito bem ou talvez porque conhece os noivos há muitos anos, é um daqueles pedaços de prosa no tamanho certo, com o ritmo perfeito e a punch line ideal. Um espelho daqueles dois em forma de palavras, com tanto de cumplicidade como de amizade e partilha. Daqueles textos que, se algum dia casarmos (pela primeira vez ou em repetição), gostaríamos que alguém fizesse para nós. O padrinho não se importará que lhe peça emprestadas algumas dessas palavras tão certas: «Eles moldaram-se um ao outro. Mudaram. Discutiram. Riram. Choraram. Perdoaram e voltaram a rir. Viveram afastados sem saberem que nunca estiveram realmente separados.» É um pequeno e perfeito hino às segundas oportunidades – e à importância de estarmos disponíveis para sentir novamente. Até atingirmos a perfeição.

[Publicado originalmente na edição de 2 de agosto de 2015]