Polícia bom ou polícia mau?

Muitos pais desesperados e sem estratégias adequadas para lidar com os comportamentos desajustados dos filhos, como as birras, a recusa em comer ou em fazer os trabalhos da escola, recorriam à figura do polícia como o bicho papão que os levaria sabe-se lá para onde, como quem diz “ou te portas bem ou chamo o polícia para te levar e castigar”.

Hoje em dia, no extremo oposto, percebemos que as crianças percepcionam os polícias como pessoas de confiança, em quem podem confiar e revelar os seus problemas. Prova disso é aquilo a que vamos assistir na semana que amanhã começa. Entre 18 e 22 de Novembro, os agentes do programa escola segura da PSP vão iniciar uma acção nacional de prevenção do abuso sexual com alunos do 1.º e 2.º ciclos. A propósito do “Dia Europeu para a Protecção das Crianças contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual”, que se celebra a 18 de Novembro, esta campanha terá como base alguns materiais já desenvolvidos e testados em Portugal (Rute Agulhas e Joana Alexandre, ISCTE-IUL), bem como um jogo sobre os Direitos da Criança (“Direitos em Jogo”, a lançar no próximo dia 26 de Novembro).

De policias maus, associados a ameaça e indução de medo, passamos a polícias empáticos e geradores de conforto e segurança. Uma mudança de paradigma extremamente importante e que poderá fazer toda a diferença na vida de tantas crianças e jovens.

O abuso sexual é uma realidade com elevada prevalência que se alimenta do silêncio e do segredo. Com recurso a estratégias muito diversas, envolvendo, na maior parte das situações, o aproveitamento de uma situação de familiaridade e proximidade, os agressores (de ambos os sexos, de todas as idades e níveis sócio-económicos) aproximam-se da criança, envolvem-se nos seus contextos de vida e, gradualmente, sexualizam a relação.

O chamado processo de “grooming”, que é necessário conhecer para conseguir identificar. As vítimas, também de ambos os sexos, de todas as idades e que podem apresentar características muito diversas (não existe um perfil de vítima, embora seja possível identificar alguns factores de risco, a nível individual, familiar e social), inundadas pela culpa, vergonha, medo e sentimentos de lealdade face ao agressor, calam-se.

Neste contexto, pensar que, durante os próximos 5 dias, agentes da PSP vão estar por todo o país a falar de forma aberta e a alertar para a problemática do abuso sexual é, efectivamente, um passo muito importante. Porque falamos de pessoas que estabelecem um contacto privilegiado com estas crianças. Em quem as crianças confiam e a quem podem pedir ajuda em caso de necessidade.

Não estranhem, também, se os vossos filhos vierem falar-vos da existência de bons e maus segredos

Pais e mães, não estranhem, portanto, se nos próximos dias os vossos filhos vierem falar-vos do corpo e da noção de partes privadas, que não devem ser mostradas a qualquer pessoa, em qualquer contexto.

Não estranhem, também, se os vossos filhos vierem falar-vos da existência de bons e maus segredos, sendo que os maus segredos são aqueles associados a emoções negativas e que devem ser revelados a alguém de confiança.

Não estranhem, ainda, se os vossos filhos vierem falar-vos da importância em saber dizer “sim” e dizer “não”, salientando o facto de que nem todos os adultos têm razão.

Em última análise, não estranhem se os vossos filhos se mostrarem mais assertivos e confiantes, conscientes dos seus direitos e daquilo que pode consistir numa violação desses mesmos direitos.

Para as nossas crianças, cada vez existem menos polícias maus. Apenas polícias bons, que ajudam e protegem. E é tão reconfortante saber isto. Muito obrigado à PSP.