Porque é que os homens fogem tanto do médico?

homens e médico

Pode ser culpa da sociedade, que julga as queixas masculinas sem admitir fragilidades. Ou culpa deles próprios, que tanto se armam em piegas como em super-homens. Ou culpa das mães, sempre a apaparicá-los até mais não. Afinal, porque é que ainda lhes custa tanto irem ao médico?

Texto de Ana Pago

As estatísticas não são nada meigas com os homens: em 2016 (dados da Pordata), a esperança média de vida era de 77,7 anos para o sexo masculino, face aos 83,4 anos do sexo feminino. Vários estudos acrescentam ainda que os homens tendem a sucumbir mais jovens do que elas e a excederem-se no tabaco, álcool e outros fatores de risco. Mas como não hão de as mulheres durar mais se eles morrem de medo só de pensar em ir ao médico?

“Tendencialmente as mulheres são mais resilientes do que os homens, treinadas para tomar conta e resolver as dores dos outros, o que significa que eles acabam por se encostar a este aspeto cuidador do feminino”, explica o médico psiquiatra Vítor Cotovio. Qualquer queixume tem resposta no colo da mãe, da namorada ou da mulher, sejam meninos ou homens feitos: “É uma resposta confortável, que não melindra, o que os habitua a procurar este tipo de alívio e a protelar uma ida efetiva ao médico”, diz.

Um fator de peso a afastar os homens das consultas é poderem ser considerados fracos pela sociedade.

Além da pieguice natural alimentada pelas mãezinhas literais ou metafóricas, acrescida do pavor de virem a descobrir uma doença séria qualquer (eles bem que desconfiavam daquela dorzinha), um outro fator de peso a afugentar os homens das consultas é poderem ser considerados fracos pela sociedade, revela um estudo da psicóloga social Mary Himmelstein, investigadora da Universidade de Connecticut, EUA.

“Crenças tradicionais sobre os papéis sociais de cada género influenciam a forma como a nossa cultura constrói a masculinidade”, explicou à BBC a especialista, referindo-se às mensagens que todos recebemos, a cada instante, relativamente a como os homens são, deveriam ser (caso fossem perfeitos) ou é suposto agirem.

“Se um rapaz cai e esfola o joelho, minimiza-se e pedimos-lhe que não chore como uma menina. Se uma rapariga cai e lhe acontece o mesmo, desinfeta-se e equacionamos levá-la a um profissional de saúde”, confirma a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, para quem o exemplo parece exagerado, mas ilustra bem a diferença de orientações a começar na infância. “Por norma, crê-se que os homens são mais fortes e resistentes do que as mulheres, portanto parte-se do princípio de que adoecem menos, recuperam melhor e aguentam mais”, diz.

Os próprios acreditam que só serão bons se forem duros, o que faz com que não peçam ajuda em caso de doença ou lesão.

Claro que essas crenças inculcam nos próprios homens a ideia de que “só serão bons se forem duros, corajosos e autossuficientes”, o que faz com que não peçam ajuda em caso de doença ou lesão, reconhece a cientista social Mary Himmelstein, após concluir que quanto mais as pessoas de ambos os sexos se identificam com valores masculinos – em particular a coragem e a autonomia –, mais evitam ir ao médico e desvalorizam problemas de saúde (mulheres incluídas nesta tendência).

“Aqui, a principal diferença é que os homens se regem por um guião cultural que os obriga a agir dessa forma para que sejam considerados homens, ao passo que as mulheres não sofrem tanta pressão social no sentido de serem corajosas, resistentes e autossuficientes”, reforça a investigadora norte-americana.

Contas feitas a tudo, é 50% menos provável um homem ter ido ao médico nos últimos dois anos do que uma mulher, segundo uma pesquisa de 2014 realizada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Pior: as hipóteses de os homens reconhecerem que passaram cinco anos sem lá pôr os pés triplicam, por comparação com as mulheres. Ainda pior: existe o dobro da probabilidade de um homem poder vir dizer que nunca, em adulto, procurou um médico ou outro técnico de saúde do que uma mulher, o que talvez configure o cúmulo do descuido.

“Se o autocuidado não for ensinado na infância, é natural que homens e mulheres cresçam a replicar o que aprenderam”, diz a psicóloga Filipa Jardim da Silva.

“Mais do que medo, eu diria que o que dificulta a adesão do género masculino aos cuidados de saúde é principalmente uma falha nos hábitos e crenças acerca do que significa ser homem”, sustenta a psicóloga Filipa Jardim da Silva, considerando que devia ser de menino que se torce o pepino também nestas questões de aprender a regular a dor, querer cuidar de si e despistar o pior.

“Se essas noções de autocuidado não são ensinada durante a infância, ou os modelos praticados pelas figuras de referência as desincentivam ao irem num outro sentido, é natural que homens e mulheres cresçam a replicar o que aprenderam”, resume a terapeuta clínica, lamentando as falhas de comunicação em saúde que impedem que certas ideias preconcebidas sejam atualizadas e flexibilizadas.

E isto quando qualquer adulto – os médicos estão de acordo neste ponto – beneficia de fazer um check-up anual com análises clínicas e exames adequados ao seu género e idade. Paralelamente, numa base regular e não apenas quando o rei faz anos, há que dedicar especial atenção aos níveis de energia de cada um, sensações corporais que possam destacar-se pela negativa, qualidade do sono, escolhas alimentares e variabilidade do apetite e do humor.

Sendo assim, que mais pode afastar um homem do dever de se cuidar?

Todas as desculpas servem, na verdade, a avaliar por uma pesquisa online encomendada pela rede hospitalar Orlando Health, na Florida, EUA. Segundo os inquiridos, questionados sobre o porquê de não marcarem anualmente com o seu médico de clínica geral, as razões variavam entre ter muito que fazer (22%), recear descobrir qual o problema (21%), exames médicos constrangedores como os do reto ou próstata (18%) ou ser forçado a responder a perguntas íntimas por parte do médico (8%). Uns quantos juntaram ainda à lista o horror de acusarem peso a mais na balança do hospital, sentirem frio na sala de exames ou ficarem nus por baixo da bata.

Apesar de tudo, hoje em dia já mais homens tomam a iniciativa de aparecer espontaneamente para um rastreio.

“As mulheres começam a ir cedo ao ginecologista, são observadas durante toda a idade fértil, então não fazem disso um drama como eles”, constata o médico urologista João Almeida Dores, do Hospital Beatriz Ângelo e CUF Descobertas. É certo que hoje em dia já mais tomam a iniciativa de aparecer espontaneamente para um rastreio, sem terem de ser arrastados: aos poucos, apesar da relutância, aceitam que a prevenção precoce é melhor do que remediar. Ainda assim, vê isso acontecer com uma minoria muito aquém da que devia. E sobretudo no privado, não tanto no público, onde chegam já num extremo ou de ambulância.

“É engraçado: as mulheres vão mais ao médico do que os homens, mas depois se têm uma dor aguentam e minimizam, à espera de que passe sozinha”, compara Almeida Dores, familiarizado com estas diferenças. Eles não: “São muito mais medrosos do que elas, sempre a adiar e a arranjar pretextos que o justifiquem. No entanto, veem uma manchinha na glande e no dia a seguir estão numa consulta.”

É mais uma peça no confuso puzzle relacional entre homens e médicos, a que se junta a tendência para não voltarem para segunda consulta se o médico for mulher. “Por um lado querem uma mãe de roda deles; por outro, se têm uma médica-mãe, não querem”, confirma o psiquiatra Vítor Cotovio, explicando a lógica da (aparente) contradição: “A mãe é capaz de lhes ralhar carinhosamente por comerem gorduras e ir por trás fazer uns ovos mexidos com farinheira, ao passo que a médica não vai ser condescendente.”

A própria proibição, segundo Filipa Jardim da Silva, confronta-os com a ideia de já não serem tão potentes como nos tempos em que não se preocupavam com a hipertensão ou o colesterol, pelo que é natural sentirem constrangimento em revelar a sua vulnerabilidade perante uma médica. “Alguns podem mesmo alimentar a crença de que um profissional de saúde homem irá compreendê-los melhor do que uma profissional de saúde mulher, e por isso ser mais eficaz no seu caso concreto”, acrescenta a psicóloga.

Uma coisa é certa, diz: ser forte, autossuficientes e corajoso – os tais valores que os homens associam à virilidade – não é nunca ter medos, mas ir e enfrentar algo que se receia. A começar pelas zangas do médico se por acaso não o estamos a procurar tantas vezes como era suposto.