Porque é que os homens ressonam durante a noite quando os filhos choram?

Porque é que os pais dormem que nem uma pedra enquanto as mães passam o tempo a levantar-se quando os filhos estão doentes ou despertam com pesadelos? Ou sede ou frio ou calor ou o que quer que seja que a canalhada arranja para acordar a meio da noite. E não me refiro ao período de amamentação, quando o shaker do cocktail de hormonas está ainda a ser abanado e elas estão mais sintonizadas com o bebé. Refiro-me aos anos seguintes, mesmo.

De manhã, quando vejo a minha mulher com aquele ar cansado, na fronteira entre a fadiga extrema e a incompreensão por eu ter conseguido dormir enquanto ela passou a noite inteira a caminho do quarto das miúdas, eu repito-lhe: «acorda-me e eu vou lá». O que está para lá do limite da compreensão dela não é o facto de eu não ter aquele estranho sexto sentido acionado quando a temperatura corporal das pequenas sobe acima dos 37,2o C e ela passa assim ao nível de alerta laranja. O que a minha mulher não entende é como é que sou capaz de dormir enquanto ela entra e sai da cama vezes sem conta, com uma cria a chorar alto no quarto em frente. É que não só não acordo, como ainda ressono. Que lata!

Sinceramente, eu também não entendo. Mas queria entender. E queria acordar. Queria ter essa capacidade de vigília que me abrisse a pestana quando as minhas filhas estão a precisar. Queria ser capaz de lhes antecipar o desconforto para estar lá para elas e para poupar a minha mulher. E por isso reforço constantemente: «Acorda-me. Se vês que eu estou ferrado a dormir, acorda-me e eu vou lá.» E reitero a disponibilidade e a obrigação. Mas depois começo a falar demais e entro em terreno perigoso: «Eu não tenho culpa de estar a dormir. Se não acordo naturalmente e tu não me acordas, não posso fazer nada.» Se tento justificar com os neurotransmissores que não são ativados no meu cérebro quando as minhas filhas choram ou com as hormonas que não são descarregadas quando uma delas está com febre, arrisco-me a uma resposta torta em torno da vinculação, da proximidade e do meu papel de cuidador. Pior: essa resposta de uma mulher que está de rastos porque não dormiu e viu o marido a descansar a noite inteira pode vir revestida de alguns impropérios e nariz torcido. Ainda pior: ela é capaz de ter razão.

O que me leva à minha conclusão, não baseada na evidência científica mas na observação de várias cobaias (amigos e colegas): por muita boa vontade, amor e instinto protetor a rodos que um fulano se orgulhe de ter, é certo e sabido que terá o sono mais pesado enquanto souber que alguém ao lado vai acordar mais depressa se alguma coisa for precisa. Se o cuidado com as crianças depender sobretudo dele, o sono ficará leve como uma pena; mas se ele pertencer à equipa de intervenção de segunda linha, então irá dormir como um calhau. Quem cuida mais, desperta mais.

Naturalmente, isto tanto se aplica a homens como a mulheres, o que importa não é a biologia, mas a disponibilidade e presença. Até porque – e isto sim, está provado cientificamente – não é apenas o cérebro feminino que muda com a maternidade, fruto da adaptação que ocorre durante a gravidez. O cérebro masculino também muda com a paternidade. Mas essa mudança é facultativa – as estruturas cerebrais do homem podem adaptar-se, sim, mas apenas se ele for cuidador empenhado. Se estiver presente, disponível para as necessidades do filho. Chamem-lhe instinto paternal. Claro que isto ocorre principalmente depois da amamentação, aquele período durante o qual o cuidador com o sono mais sincronizado com o do filho é, naturalmente, a mãe, devido à imbatível sintonia neuro-hormonal entre ambos. Não há cá estrutura cerebral masculina que se meta entre uma cria faminta e a sua principal fonte de alimentação, afeto e proteção. Nem que ponham os despertadores e os telemóveis todos lá de casa a apitar.

O problema – e voltando ao tema do sono – é que por muito instinto paternal que tenhamos, por muito desenvolvido que o nosso cérebro esteja, se a outra pessoa estiver mais presente, é ela que vai acordar mais vezes. Por isso, a resposta à pergunta do título é: porque cuidam menos. Ainda que cuidem muito e sejam ótimos e espetaculares e fantásticos a fazê-lo. É simples. Ou não.

 

[Editado. A versão original foi publicada na edição de 18 de dezembro de 2016.]