Porque não devemos educar os filhos dos outros?

educar filhos dos outros

Quem nunca deu palpites quanto à forma ideal de se educar uma criança que atire a primeira pedra. Criar os filhos dos outros é fácil. Até os nossos nascerem e nos obrigarem a engolir cada palavra.

Texto de Ana Pago

Ao ouvir aquele comentário ácido, inesperado, absolutamente não solicitado, Laura Costa sentiu-se capaz de cuspir fogo. “Estava na rua à espera do meu marido, com o meu bebé a tiracolo adormecido no sling, quando uma senhora aponta para nós e grita: ‘Credo, levar uma criança toda enrolada, que falta de noção!’ Fiquei para morrer ali”, conta a web designer, mãe de primeira viagem há seis meses. Se ainda conhecesse a pessoa era uma coisa, mas não: chegou, mandou a boca e afastou-se a criticar. “Já eu andei dias a achar-me uma relapsa”, confessa.

Uma reação normal, segundo Filipa Jardim da Silva, dado que quem bombardeia os outros tende a ver o mundo com um mindset que nos atordoa. “São pessoas que acreditam tipicamente que têm razão, soluções para tudo e dominam a verdade, sem se flexibilizarem na sua perspetiva”, revela a psicóloga clínica. Na sua maioria, pensam em termos de prato e branco, tudo ou nada. “É esta sensação de sabedoria que as faz opinar ao ponto de levarem os pais à loucura”, reforça, solidária.

Aconteceu com Carla Santos ainda antes de a filha nascer, há um ano: “Como se não bastassem os medos habituais ou as hormonas aos saltos, a minha sogra insistia em avaliar cada passo que eu dava”, recorda a gestora, ainda hoje incapaz de perceber como é que alguém com dois dedos de testa, que também é mãe, vai dizer a uma grávida que está com uma pele horrível e um cabelo de meter nojo.

“Repreendia-me por eu caminhar quilómetros, pintar paredes ou aspirar debaixo da cama, mas depois comentava com a minha cunhada que só me fazia bem mexer, coitado do filho. Onde já se viu pedir ao marido que estendesse a roupa com uma mulher em casa? Gravidez não é doença”, desfere Carla Santos, eternamente dividida entre a pacificação e a mágoa.

E isto mesmo que haja uma genuína vontade de ajudar por detrás dos conselhos gratuitos, ressalva Magda Gomes Dias, especialista em parentalidade positiva. “À partida, se eu digo àquela mãe que deve repreender o miúdo o intuito não é mostrar que está a ser fraca, mas torcer para que nenhum dos dois se dê mal”, traduz a autora do blogue Mum’s the boss.

Uma segunda razão para os pais ficarem tão abespinhados é sentirem uma incompetência ao nível da inteligência emocional e social – dos outros, mas também deles próprios – que os desconcerta. “Muitas vezes ainda estão a ajustar-se à criança e aos seus novos papéis, ninguém nasce ensinado, e tudo o que veem é gente que os agride quando eles mais necessitam de empatia”, observa Magda Gomes Dias. Some-se a isto o facto de muito poucas pessoas saberem pôr-se no seu lugar e está o caldo entornado, diz.

Tudo porque a parentalidade, sendo uma dimensão privada, na prática não é encarada como tal.

“Desde os tempos de conceção e gravidez que muita gente a experiencia – mesmo aqueles que não a vivem diretamente, observam”, sustenta Filipa Jardim da Silva, ciente de que esta participação sem convite se acentua quase sempre após o nascimento. “Estamos biologicamente programados para cuidar de um bebé, daí haver tantos que se julgam peritos na matéria, ou até legitimados a participar na educação dos filhos dos outros”, acrescenta.

Neste ponto, é crucial o casal definir o que pretende enquanto família, com confiança, independentemente do ruído que possa existir à sua volta, avisa Magda Gomes Dias, conciliadora. “Eu posso estar numa sala em que toda a gente grita A, B ou C, cozido ou grelhado, e no fim fazer o que achar melhor sem discutir com ninguém.” É que não vale mesmo a pena entrar em confrontos, diz a especialista em parentalidade positiva, para quem a única regra transversal a todos os pais é a de aprenderem a afirmar-se sem serem agressivos, passivos ou manipuladores.

“A minha sogra deixa-me doida com a mania de que sabe tudo? Passa a vida a mostrar que é ótima mãe porque até educou o homem com quem casei? OK, eu não preciso de ir contra ela, por mais que me irrite”, orienta a autora do Mum’s the boss. É mais fácil a nora perceber que ela tem vontade de ajudá-la, embora de caminho possa passar-lhe um atestado de incompetência. “Se no fim sou eu quem decide, não os avós ou a vizinha do lado, para quê discutir?”, questiona a coach.

Sobretudo porque cada geração tem os seus desafios e nenhum pai, de nenhuma idade, nasce com uma licenciatura em educação dos seus próprios filhos (quanto mais dos filhos alheios). “Se eu expressar uma opinião, há que fazê-lo com a noção de que não é a verdade absoluta ou algo mandatório, apenas o meu ponto de vista”, alerta a psicóloga Filipa Jardim da Silva. Às mães que se sintam em causa no processo sugere que ouçam a sua voz interior, mais sábia do que todas as multidões juntas. O silêncio é de ouro em muitos sentidos.