Porque não me contaram que fui adoptado??

Adoptar uma criança é algo mágico e maravilhoso, pela capacidade que os pais têm em acolher e amar alguém que não foi gerado por si. Pela capacidade de entrega a uma criança que precisa do amor de uma família. Porque, e essa é a realidade, todas as crianças precisam de uma família. Seja ela composta por um pai e uma mãe, por dois pais ou duas mães, apenas um pai ou uma mãe, avós ou tios, ou outros, a verdade é que estes vínculos afectivos e sentimentos de pertença são únicos e insubstituíveis. Valem ouro e preparam a criança para explorar o mundo em seu redor, com segurança.

Sabemos também que o processo de adopção é moroso e muito complexo, com uma avaliação que se quer rigorosa e exigente. Assim tem de ser, não podia mesmo ser de outra forma. E volvido este processo, a criança conhece então a sua família e uma nova etapa começa. Uma etapa que a todos coloca constantes desafios e que exige recursos a vários níveis. E de entre as numerosas dúvidas e inquietações que se colocam aos pais, uma surge com especial frequência e relevância. Quando e como contar à criança que foi adoptada?

é consensual que a criança deve saber assim que tiver idade e maturidade para compreender a sua história.

Pois é, não existe uma resposta única que se adeque a todos os casos. Não pode existir, atendendo a que cada caso é, efectivamente, um caso, com as suas idiossincrasias e especificidades. No entanto, e apesar de todos os receios que os pais possam sentir (e que contribuem para que, não raras vezes, adiem ad aeternum esta conversa), é consensual que a criança deve saber assim que tiver idade e maturidade para compreender a sua história.

A explicação deve ser clara e com recurso a uma linguagem que a criança entenda. Ao mesmo tempo, os pais devem estar preparados para as perguntas da criança. Por vezes, perguntas totalmente inesperadas e mesmo inusitadas. Outras vezes, perguntas para as quais não existe uma resposta certa, porque os pais simplesmente não sabem ou têm dúvidas. E é isso mesmo que os pais devem admitir, de uma forma honesta e genuína.

Percebemos os motivos que levam os pais a adiarem esta revelação. Não sabem como nem quando contar, ao mesmo tempo que receiam uma reacção negativa por parte da criança. E se a criança se revoltar? E se sentir que não é suficientemente amada? E se quiser voltar para a sua família biológica? E se, e se… em boa verdade, os pais sentem medo. Muito frequentemente também, sentem-se (e estão) sozinhos em todo este processo. Pois da parte dos serviços de adopção não existe ainda um acompanhamento pós-adopção que permita minimizar esta e outras dificuldades. É uma realidade que os serviços reconhecem, sendo que, acredito, caminhamos no sentido de a alterar.

Com o tempo, a criança acaba por integrar a sua história e não deixa de amar os seus pais por isso.

Por todos estes motivos, muitos pais acabam por adiar esta revelação, o que não costuma ter bons resultados. A criança desconfia porque tem a pele de outra cor, ou porque ouviu algumas conversas, ou porque os colegas da escola lho sugeriram, ou porque a vida é de facto uma caixinha de surpresas e há variáveis que não se controlam. E quando a criança descobre de uma forma acidental, vê-se confrontada com emoções muito confusas e mesmo contraditórias. Mas sente-se, acima de tudo, traída e enganada. Com o tempo, a criança acaba por integrar a sua história e não deixa de amar os seus pais por isso. Nada disso. E mesmo que, mais tarde, sinta a necessidade em saber mais sobre os seus pais biológicos, isso não significa que abandone os seus verdadeiros pais. Aqueles que decidiram amá-la.

Se adoptou uma criança e ainda não lhe contou, pense sobre tudo isto. Estará na hora de o fazer? Se preciso for, peça ajuda. Não tem de percorrer sozinho este caminho.